Jonas OliveiraWalter Salles e Fernanda Montenegro em entrevista coletiva: ‘‘Central do Brasil’’ é o retrato de um país sensívelWalter Salles, diretor de ‘‘Central do Brasil’’, iniciou seu bate-papo com a imprensa curitibana, na última terça-feira, dizendo que Fernanda Montenegro fez questão de vir a Curitiba, cidade com a qual ela tem uma longa ligação afetiva. O filme, grande vencedor do último Festival de Cinema de Berlim, onde ganhou o Urso de Ouro (melhor filme e direção) e o Urso de Prata (melhor atriz para Fernanda Montenegro), teve estréia nacional na última sexta-feira, em 36 cinemas de 11 cidades, levando quase setenta mil espectadores a se emocionarem com a história de Dora e Josué nos três primeiros dias de exibição. Nesse próximo final de semana, o filme deverá estrear em mais sete cidades e 14 cinemas.
Fernanda Montenegro relembrou emocionada a sessão especial realizada na pequena cidade de Cruzeiro do Nordeste, interior de Pernambuco, no dia 22 de março, onde ficaram conhecidos como os ‘‘fazedores de cinema’’. Mas isso não deu a eles nenhuma estranheza na relação com os habitantes locais. Walter ressalta que a reação da população foi inicialmente de espanto diante da tela grande e logo em seguida veio a procura para identificar as pessoas do lugar que aparecem no filme. Fernanda completa dizendo que foi um dia de festa.
Perguntado se a cidadezinha ganharia um cinema depois dessa experiência, Walter Salles disse que antes eles precisam de água, uma promessa desde 1978. Salles comenta sobre o extensa pesquisa de locação que consumiu quase dez meses de trabalho e dez mil quilômetros rodados pelo sertão nordestino para que fosse encontrada a locação perfeita. Eles fizeram um mapeamento extremamente detalhado e visitaram regiões do Piauí, do Ceará, da Bahia e de Pernambuco, onde terminaram optando pela pequena Cruzeiro do Nordeste, localizada perto de Arcoverde, a pouco mais de 300 quilômetros da capital, Recife.
ReproduçãoFernanda Montenegro e Vinícius de Oliveira contracenando com Othon Bastos em ‘‘Central do Brasil’’
A locação que aparece no final do filme, o conjunto habitacional, está localizado em Vitória de Conquista, Bahia, e Fernanda lembrou que com aquelas casinhas, se faz o mesmo jogo político que é feito com a água. Por sugestão dela, foi incluído no roteiro a palavra ‘‘invasão’’, pelo fato de as casas terem sido invadidas por pessoas pobres e sem moradia. Walter completou dizendo que aquele final no conjunto habitacional, remete o espectador novamente ao ‘‘mundo serial e repetitivo da Central do Brasil’’. Na verdade, para ele, aquilo é um ‘‘estacionamento de gente’’, e não faz sentido existir, já que não há nenhuma atividade econômica em volta do local que justifique sua existência.
Mas então por que a personagem Dora deixa, no filme, o menino Josué naquele lugar? ‘‘Porque há a possibilidade do afeto, essa é que é a grande questão. É um filme sobre a busca do afeto e nesse sentido, ela se permite esse gesto: deixar o menino e viver o que ela nunca viveu, ou seja, ter a possibilidade de aos sessenta e poucos anos se abrir para o mundo. É um filme sobre a resensibilização da Dora. Um jornalista chamado Sérgio Augusto escreveu na revista ‘Bravo’ uma coisa interessante, ele falou assim: é um filme sobre a busca; a busca inerente a qualquer troca de cartas; a busca da resensibilização dessa mulher e dos sentimentos que ela deixou de compreender e de viver; a busca do afeto; a busca do pai e sobreposto a isso, a busca de um país, de um certo país’’.
A idéia para o roteiro de ‘‘Central do Brasil’’ surgiu depois de Walter Salles ter dirigido um documentário de curta-metragem, ‘‘Socorro Nobre’’, que contava a história real de uma mulher, a Socorro do título, uma presidiária que trocava cartas com o escultor Franz Krajcberg. A história veio como em um relâmpago, inteira, na cabeça de Walter, que de imediato escreveu as 25 páginas que serviram de ponto de partida para o roteiro de ‘‘Central do Brasil’’.
A personagem de Dora foi criada por Salles especialmente para Fernanda Montenegro: ‘‘é um desejo que eu tenho, talvez há mais de dez anos, quase 15 anos, eu procurava a história correta para que a Fernanda pudesse me dar esse presente. O filme foi ensaiado durante vários meses como se fosse uma peça de teatro, antes de ser rodado, e nesse sentido, a Fernanda é tão autora do roteiro quanto os roteiristas e eu mesmo que tive a idéia inicial dessa história’’.
Perguntado sobre o menino que faz o papel de Josué, Walter conta que foi ‘‘mais difícil encontrar o Vinícius de Oliveira do que a Fernanda. O Vinícius foi o resultado de sete meses de uma intensa procura, foi uma busca desenfreada e no final, dos 1.500 entrevistados, cinco meninos talentosos, mas que por uma razão ou por outra, não eram o que a gente estava esperando que o menino fosse, não eram definitivamente o Josué. E o que é que nós estávamos realmente querendo? Um menino que tivesse um conhecimento do que era a luta pela sobrevivência, mas que não tivesse perdido a inocência nesse processo, ou seja, que tivesse uma dignidade de propósito, que fosse perseverante. A Fernanda descreve o Vinícius como um guerreiro’’. A atriz completa de imediato: ‘‘ele é um guerreirinho, ele é danado’’. Walter complementa: ‘‘O fato dele ser extremamente inteligente e ter uma estrutura familiar sólida e de ser um menino diferente do Josué do filme, o distancia da experiência do Fernando Ramos da Silva (outro jovem ator que ficou famoso no papel de ‘‘Pixote’’).
Desde já, ‘‘Central do Brasil’’ está cotadíssimo para a disputa no próximo ano do Oscar de melhor filme estrangeiro. Walter Salles não parece muito preocupado com isso: ‘‘Se você me perguntar quem foram os vencedores nas décadas passadas dos festivais de Berlim, Cannes e Veneza, eu sei te dizer, provavelmente, com certeza quase todos. Se você me perguntar quais foram os últimos vencedores do Oscar, eu provavelmente vou estancar em algum momento. Isso nunca foi uma preocupação minha. Eu sei que a grande maioria dos diretores vai em direção oposta. Se o filme vier a representar o Brasil no ano que vem, eu espero que ele faça isso com dignidade, como o filme do Bruno Barreto, diretor de ‘O que é Isso, Companheiro?’, que foi indicado este ano’’. ‘‘Central do Brasil’’ terá lançamento internacional a partir de agosto e será distribuído nos Estados Unidos pela Sony Pictures, com o título de ‘‘Central Station’’. No resto do mundo, será mantido um título traduzido literalmente do original.

mockup