Em busca de um cinema perfeito
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segunda-feira, 04 de março de 2002
Rodrigo Souza Grota<br>Reportagem Local 
Uma das questões mais pertinentes à sétima arte se refere à introdução de outras linguagens na chamada gramática cinematográfica. Confluência de outras narrativas, como o teatro, a literatura, a pintura e a música, o cinema sempre foi alvo dos críticos que nunca distinguiram um diferencial de linguagem nessa arte em constante combate com o entretenimento. Um pouco dessa celeuma pode ser diluída pelo selecto de escritos que a editora Cosac & Naify lançou no mercado recentemente: A Palavra Náufraga, do jornalista e crítico de cinema paulista Antonio Gonçalves Filho.
O livro apresenta 115 artigos escritos entre 1984 e o ano passado, marcado por uma elegância ímpar na crítica cinematográfica atual. Ex-editor do Caderno 2 do jornal O Estado de S.Paulo, Gonçalves Filho já passou pelos principais jornais do País alcançando um inegável conhecimento em diversas artes: literatura, música, teatro e artes plásticas. O cinema foi a porta de entrada para esse infinito universo estético: Nasci em Santos e frequentei por muito tempo o Clube de Cinema de lá, um dos mais antigos do País. Ia também aos cinemas de bairro, que hoje não existem mais.
Gonçalves Filho publicou sua primeira crítica em 1972, no jornal A Tribuna, em Santos mesmo. Trabalhou depois nos periódicos A Cidade, Folha de S.Paulo (1979-1993), O Estado de S.Paulo (1993-2000) e Valor (2001). Hoje é repórter especial da revista Época. Em 1984, publicou Schubert, biografia do grande músico, editada pela Nova Cultural. Sua atividade como repórter talvez não o desloque tanto do real, o que torna suas críticas uma relevante simbiose entre alto conhecimento erudito e engajamento lúcido, racional.
Entre os cineastas prediletos do crítico, estão a nata do cinema europeu no século 20. Grandes nomes como Tarkovski, Fellini, Bresson, Dreyer, Visconti, Antonioni, Godard, Lubitsch, Fassbinder, Bergman e Wenders. Mas ele também se permite ao grande cinema americano - Welles, Kubrick, Scorsese, Ray e ao resistente cinema brasileiro, nas figuras de Nelson Pereira dos Santos, David Neves e Hector Babenco, entre outros. É uma preferência que privilegia o autoral à diversão, a reflexão ao entretenimento. Mas é também uma escolha que imprime ao cinema uma dimensão mágica de conferir às nossas vidas algo a mais que a rotina, uma transcendência lúdica em que somos conduzidos felizes pelos instantes de ilusão.
Nas salas escuras de Santos, apresentou-se ao crítico Ozu, Mizoguchi e Shindo, ícones de um cinema japonês que não existe mais. Apesar de constatar uma certa decadência do cinema autoral no percorrer de seus textos, Gonçalves Filho acredita que novas tecnologias como o DVD podem oferecer um referencial clássico essencial às novas platéias: Filmes estão sendo recuperados e chegando a um novo público que não tinha acesso a esses clássicos. Isso acaba trazendo novos cinéfilos. O otimismo referente às novas platéias não é o mesmo quando a questão é a linguagem cinematográfica. As novas tecnologias digitais podem mudar a narrativa do cinema? Creio que já exista um código próprio, estabelecido. Não sei se uma questão técnica irá alterar a linguagem.
O que atrai Gonçalves Filho no cinema é sua dimensão onírica, uma mágica presente só nas salas de projeção. Sob esta ótica, ele define o cinema como um mito temporal, resultante de uma história em que a luz livra-se das trevas, não por vontade de LumiSre, mas de uma força infinitamente mais poderosa, explica o crítico no prefácio da obra. Daí o caráter religioso que uma sessão de cinema acaba tendo, em uma perspectiva muito próxima daquela definida por outro crítico, o gaúcho Goida, que confessa ter aprendido a ser bom com os heróis do cinema.
Em uma crônica crucial, o crítico analisa a adaptação que Luchino Visconti fez de Thomas Mann, Morte em Veneza, comparando esta obra à resignação ao que o cinema se encontra. No filme, o escritor Gustav Aschenbach (Dick Bogarde), ao retirar-se em Veneza para breve descanso, é perturbado pela presença de um jovem, Tadzio. Diz o crítico: Atormentado pela presença da morte e a diluição de seu mundo intelectual no inferno da paixão, Aschenbach entrega-se à contemplação mórbida em absoluto silêncio, enquanto escorre a maquiagem de seu rosto e sua dignidade cai por terra. O artista, que deveria ser um modelo de equilíbrio e força, segundo Aschenbach, desmorona de forma desonrosa diante do olhar oblíquo de Tadzio. Os dilemas expostos por Visconti remetem a uma aristocracia que se vê impedida de aceitar o instinto, ainda consolidada em uma razão autodestrutiva, aniquiladora. E qual é a situação atual do cinema? Perdidos em uma lógica comercial, e em alguns casos, em um formalismo experimental que ignora todo os cânones já criados pela sétima arte, o cinema caminha manco, desamparado por uma intuição criativa que poderia nos oferecer a grande arte, aquela que Gonçalves Filho sabe que é própria dos espíritos nobres, que trascendem essa dicotomia moral: instinto versus intelecto.
Exemplos de um cinema que se afasta do formalismo racional estão na linguagem onírica de Tarkovski, no sentido que Bergman dá ao conceito de compaixão de Schopenhaeur, no passionalismo de Fassbinder, nas questões religiosas impostas por Passolini, na elegia circense de Fellini e em tantos outros mestres. Talvez seja essa ousadia que falte ao cinema contemporâneo. Experimentos que não ignorem um código já estabelecido como próprio da sétima arte.
Recentemente, o cineasta russo Alexander Sokurov apresentou em Berlim um filme de duas horas sem cortes. Equipado de uma câmera digital, ele percorreu o salão do maior museu de Moscou para narrar séculos da história da Rússia. Em 1999, foi apresentado em Veneza um filme sem imagens, apenas com diálogos. Enfim, serão essas as novas revoluções do cinema? Pelos textos de Gonçalves Filho conclui-se que ao autêntico cinema impõe-se um conhecimento intenso do potencial de outras linguagens, uma revisão rigorosa dos cânones das demais artes, um vislumbramento imprudente daquilo que deve ser o novo cinema - uma linguagem que incorpora as novas tecnologias mas não esquece as bases em que Aristóteles concebeu as poéticas de sua época. Desse modo, Asi Es La Vida, de Arturo Ripstein, e O Mundo de Luz e Sombras, último filme de Bergman, apontam claramente esse novo cinema que pode surgir. Ambos foram feitos em vídeo, um novo suporte. E ambos trazem uma linguagem cada vez mais aberta às demais artes e cada vez mais presa ao diferencial que o cinema permite: criar um mundo mágico em que o onírico se traveste facilmente de real - eis uma síntese possível dos ensinamentos dessa coletânea de Antonio Gonçalves Filho.
Serviço: A Palavra Náufraga, de Antonio Gonçalves Filho. Editora: Cosac & Naify. 376 páginas. R$ 38,00. Pedidos pelo fone (11) 3218-1444 ou 3257-8164.


