Rio de Janeiro. Jacarepaguá. 15 de janeiro. Segunda-feira. Meio-dia. Sol de amolecer a moleira. Colônia Juliano Moreira. Em uma sala, de um dos pavilhões da imensa gleba de prédios históricos invadidos por famílias de sem-tetos da redondeza, de ex-funcionários e ex-moradores da Colônia, local circundado por uma paisagem majestosa, que foi aldeia indígena, que serviu à escravidão na plantação de café e transformou-se em hospício de loucos, um local misto de ruínas, fazenda, cortiços, favela e hospital psiquiátrico, onde ficou internado, por mais de 50 anos Arthur Bispo do Rosario. Neste local, nesta sala chamada de reserva técnica, ficam as obras que ainda faltam ser catalogadas e ou restauradas da obra deste homem que tinha a ‘‘missão de refazer o mundo e apresentá-lo a Deus no dia de sua passagem’’. Para isto não dormia mais do que 4 horas por dia, trabalhando incessantemente em sua cela dentro do manicômio.
Sua produção é espantosa, mas vendo todo o descaso do tratamento dado àquele patrimônio público, parece um milagre que a sua obra tão frágil tenha se mantido, ainda que longe das condições ideais.
Fora dos circuitos das exposições nacionais e internacionais por onde sua obra tem sido vista e aclamada, ali, o que se vê é a luta dramática e incessante de um ser humano tentando encontrar o significado de sua existência, catalogando os fatos e acontecimentos de sua vida, expressando seu desejo, buscando inconscientemente o elo perdido de sua consciência. Uma luta que se expressa por mantos e panos bordados com linha retirada dos lençóis e materiais como congas, chinelos, tênis, bolsas, colheres e toda sorte de bugigangas trocadas por cigarros com os outros internos do manicômio. Este, aliás, um dos motivos porque não gostava de mostrar o que fazia, pois podia ser saqueado pelos companheiros ou ter seus pertences tomados pelos enfermeiros.
Longe da iluminação especial e da assepsia museológica de como é apresentado ao público, o trabalho todo se torna muito menos espetacular. Revela um ser muito mais frágil e sensível do que é apresentado. O ex-boxeur da marinha, o ‘‘xerife’’ que ajudava os enfermeiros a cuidar dos pacientes mais agressivos é dono de uma obra que é, ao mesmo tempo, portadora de uma experiência da vanguarda artística e que nos mostra o estado opressor da prisão manicomial e de seu tratamento psiquiátrico feito à base de remédios violentos e choques elétricos.
A obra de Bispo do Rosario nos leva a desafiar as rotulações e propor às diversas áreas do conhecimento uma ação conjunta de pesquisa sobre a criação. Bispo se afasta do mundo dos homens, querendo encontrar a mais alta das consciências e nos coloca como ponto de interrogação o lugar de onde devemos partir para tentar compreendê-lo.
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