EM BUSCA DE PÚBLICO
Michele Muller
De Curitiba
São poucas as companhias teatrais que, ao se inscreverem para fazer parte do Fringe mostra paralela do Festival de Teatro de Curitiba acreditaram que iriam sair da cidade contabilizando o lucro com a venda de ingressos. Mas nenhum dos 48 grupos da mostra paralela deve ter contado com a possibilidade de deixar o festival com grande prejuízo financeiro e sem ter sido visto por mais que uma dúzia de pessoas.
No meio do evento, no entanto, todos concordam: participar da mostra paralela é muito arriscado. Sempre foi, apesar das notícias que chegavam a artistas do Brasil inteiro garantindo que o maior sucesso do Festival eram os espetáculos alternativos. Este ano, o risco ficou maior ainda, já que o número de peças aumentou consideravelmente e o público nem tanto.
Quem se dispõe a apresentar seu trabalho no Fringe precisa se responsabilizar por todos os gastos com passagem, hospedagem, alimentação, transporte e aluguel do auditório (que custa R$ 50,00 por dia). Todas essas despesas podem ser pagas com 80% do valor arrecadado na bilheteria. Os outros 20% ficam com a Calvin Produções, empresa promotora do FTC.
Os custos, que acabam sendo muito altos, só seriam compensados se não sobrassem cadeiras vazias nos teatros geralmente muito pequenos, e em alguns casos, fora de mão para os espectadores. Eu tive azar em ter que me apresentar no Canal da Música. Os curitibanos ainda não conhecem o lugar. E à meia-noite (horário de uma das sessões) não há ônibus perto dali, reclama o ator Tavinho Teixeira, que teve de cancelar, no sábado, o espetáculo Deus Somos Nós por falta de público. Depois disso, resolvi parar com as apresentações. Ainda haveria três, diz. Acho gravíssimo que num festival alguns espetáculos, como o meu, tenham um público médio de cinco pessoas por sessão.
Tavinho decidiu, com o consentimento da organização, liberar a entrada para a outra peça da qual participa, Pelo Buraco da Fechadura em cartaz até amanhã no Canal da Música. Eu não queria sair lucrando com o evento. Só queria ter sido assistido e não ter passado pela situação de me perguntar, poucos minutos antes da apresentação, se deveria tirar a maquiagem ou não, lamenta.
Os horários reservados para o Fringe às 18 horas e à meia-noite também servem para dificultar a conquista de espectadores. Na madrugada de domingo, as únicas duas pessoas que foram ao Teatro Cleon Jacques, no Parque São Lourenço, para assistir A Terceira Margem do Rio, não sabiam como voltar para casa, pois não encontraram ônibus nem táxis no local.
Já participei de diversos festivais no Brasil, em Portugal, na Costa Rica e na Itália. Sempre tive público. Dessa vez vim com a ilusão de que a bilheteria iria cobrir pelo menos as despesas, conta o ator da peça, Guido Campos Correa. Ele revela que saiu do festival com um prejuízo de R$ 4 mil, sem contar os cachês da equipe.
O ator de Francisco, George Mascarenhas, também precisou cancelar uma das sessões, e só não teve que desembolsar tanto dinheiro porque aproveitou a estada em Curitiba para ministrar aulas de interpretação corporal. Contar com bilheteria é fazer uma aposta cega, e a organização do evento não pode arrastar o público ao teatro. O que pode ser feito é dar mais atenção à divulgação das produções do Fringe, opina.
Um dos organizadores do festival, Vitor Aronis, diz que os artistas sabiam de suas condições, e mesmo assim muitos acreditam que o risco que correm vale a pena. Podem perder dinheiro, mas são assistidos pela imprensa do Brasil inteiro e por outros diretores e atores, destaca. O Vitor tem toda a razão. Só que nem todos os grupos conseguem ser vistos. Além disso, se o festival tem a finalidade de servir como uma vitrine do teatro nacional, deveria dar aos atores o mínimo de condições para trabalhar. Eu levei um dia inteiro para conseguir o som que tinha solicitado em fevereiro, desabafa Guido.
Ele acredita que o evento seria mais bem-sucedido se menos espetáculos integrassem a mostra paralela, contrariando a proposta de Aronis. Só não trouxemos mais por falta de espaço, diz o organizador. Isso é irresponsabilidade. Seria melhor investir em dez produções e colocá-las em locais de fácil acesso, rebate o ator de A Terceira Margem do Rio.





