Levantamento recente do Instituto Pró-Livro, encomendado ao Ibope em 2007, revelou que o Brasil tem um contingente de 77 milhões de não-leitores. O Programa Internacional de Avaliação de Alunos, no ano passado, constatou que os 4,8 milhões de estudantes brasileiros avaliados pouco compreendem o que estão lendo, deixando o Brasil na última colocação entre os 32 países inscritos.
''Esse número diz respeito apenas aos jovens alfabetizados. A população brasileira que não lê é muito maior. Apenas 22% são leitores proficientes. Dentre 180 milhões de brasileiros, quando fazemos a conta de quantos são esses 22%, o resultado fica mais assustador ainda. Temos muitos brasileiros alfabetizados que não leem na escola e fora dela. Sem leitura séria, sem aprofundamento crítico sobre qualquer assunto, fica inviável um projeto de desenvolvimento'', critica Marta Morais da Costa, professora da área de literatura na Universidade Federal do Paraná (UFPR), da Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Paraná.
O grande alcance da internet tem feito com que as pessoas leiam mais. Só que isso não significa, necessariamente, uma leitura de qualidade. ''Não é a internet que produz o leitor de textos complexos; é o livro de qualidade que torna um leitor capaz de usar com visão larga todos os recursos tecnológicos, porque aprende a dominar os meandros e armadilhas dos textos'', avalia a professora.
Ler também depende, assim como muitas outras atividades culturais, de um mínimo de vontade própria de aprender. ''Há muito texto ruim publicado em livro. Há muito texto ruim publicado na internet. Há muito filme, muita música, muitos quadrinhos ruins. O leitor tem que aprender a distinguir a pérola e o porco. Só aprende quando se dispõe a ler e discutir, ler e comparar, ler e aprofundar. Nada é fácil, nem vem por osmose, nem se aprende só na brincadeira, no humor, na festa. Ler exige trabalho. Estudar exige seriedade. Dá pra começar brincando, mas não dá para viver brincando. A literatura de boa qualidade entretém, diverte, organiza a realidade, aprofunda o conhecimento do mundo e das pessoas, pode transformar a vida do leitor. Acredito nisso. O mais são conversa fiada, diversionismo fútil, bobagens''.
Pensando nisso, Marta criou, junto com a Editora Positivo, o Projeto Zepelim, que reúne autores em livros infantis. ''O objetivo principal é formar leitores com uma literatura de qualidade. A coleção compreende três faixas, identificadas por estágios diferentes de leitura: o pré-leitor (para os livros exclusivamente de imagens), os leitores iniciantes (recém-alfabetizados) e os leitores em formação (com leitura autônoma)'', afirma a consultora do projeto e responsável também pela seleção dos originais.
''A mediação da família e dos professores é fundamental e indispensável na formação de leitores. O exemplo desses adultos leitores e o modo como estimulam as crianças e os jovens a ler provocam marcas indeléveis. Não devemos esquecer que a influência familiar e escolar podem traumatizar ou educar. A omissão de qualquer uma dessas instituições sociais agrava os problemas, entre eles o da leitura, que conduz ao pensamento crítico e à ação sobre o mundo'', explica a professora.

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