Em busca de novos horizontes
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quarta-feira, 03 de fevereiro de 1999
Zeca Corrêa Leite 
Depois de quase nove anos na Alemanha, o violinista londrinense Roney Marczak deixa Freiburg, onde graduou-se para fazer mestrado no Conservatório de Berna (Suíça). Começa agora em fevereiro as aulas com o iugoslavo Igor Ozim e sua assistente, a polonesa Monika Urbaniak. A tese de mestrado será sobre manuscritos inéditos e as obras de compositores brasileiros. Roney aproveitará a oportunidade para, mais uma vez, enfatizar que Heitor Villa-Lobos não é espanhol.
Duas coisas que tenho sempre que reafirmar lá fora: que a capital do Brasil não é Buenos Aires e que Villa-Lobos não é espanhol, disse Roney à Folha2. Esta nova fase que ele passa a viver fará com que diminua o ritmo de apresentações, seja como solista, ou em duo com o pianista Christian Ruvolo. Mesmo assim a agenda vai até novembro deste ano, além de concertos que serão realizados no Brasil, entre abril e maio.
Quando retornou à Alemanha estava praticamente certa sua atuação junto à Sinfônica do Amazonas, dirigida pelo maestro Julio Medaglia. O músico agendou concertos com a Sinfônica Brasileira, no Rio de Janeiro, com a OSPA, em Porto Alegre, e pretende tocar com a Sinfônica do Paraná. Fazer um concerto com a nossa orquestra, além do peso artístico, tem o peso emocional, afirmou.
A seguir, a entrevista que o músico concedeu em Curitiba, pouco antes de embarcar para a Europa.
Roney, você graduou-se numa conceituada escola alemã, em Freiburg. Por que escolheu o Conservatório da Suíça para fazer o mestrado?
Bem, é que achei por bem procurar uma especialização que me trouxesse maior conhecimento musical. Na Suíça tem o professor Igor Ozim, um dos mestres mais reconhecidos do mundo. Anualmente passam por Berna mais de uma centena de alunos de todas as nacionalidades e níveis, para ter aulas com ele, mas é muito difícil. Como eu consegui essa oportunidade através de concurso, não vou deixar passar.
Então foi o professor quem determinou essa mudança de endereço?
Sim. O professor Ozim é um dos três melhores do mundo. Outros dois estão na América. Ele é iugoslavo e está há quase 40 anos na Alemanha. Foi jurado de concursos de música em quase todo o mundo, mas parou com praticamente todas as atividades para trabalhar com uma classe de 18 alunos. Faço parte desse grupo. Então tenho trabalho com ele e intensivamente com sua assistente, Monika Urbaniak, polonesa radicada há 25 anos na Suíça. Será meu mestrado de música.
Qual será seu objeto de estudo?
Abordarei o trabalho de divulgação da música de compositores brasileiros na Europa; e a descoberta de músicas dos brasileiros, os manuscritos que estou encontrando, etc. Além disso terei um trabalho muito intenso, não só com o violino, como também vou mexer com regência, composição, partes teóricas, harmonia, música de câmara, orquestra. Vai ser puxado, mas estou com 26 anos e quero fazer muita coisa antes de chegar aos 30.
Você poderia estender-se mais sobre essa tese?
Ela trata justamente sobre as descobertas de manuscritos e obras de compositores como Camargo Guarnieri, Francisco Mignone, Claudio Santoro... Camargo Guarnieri deveria ser mais conhecido. Ele e Mignone são os dois pilares com que estou mexendo agora. Guarnieri tem mais de 650 obras compostas, Mignone está por aí: entre 500, 550. Depois penso em chegar aos mais recentes, como Marlos Nobre, Edino Krieger. Quero começar por aí porque é aquela fase interessante dos autores brasileiros que são totalmente desconhecidos, mas que têm um material imenso. Comparo Guarnieri a um Prokofiev. Quero mostrar esse material na Suíça, porque tenho certeza que eles vão se interessar.
Entra Villa-Lobos nos seus estudos?
Entra, principalmente porque são duas coisas que tenho sempre que reconfirmar lá fora: que Buenos Aires não é a capital do Brasil, e que Villa-Lobos não é espanhol.
Como fica o trabalho do duo Marczak-Ruvolo, sobre a música popular brasileira? Terá continuidade ou será interrompida?
Não cogitamos parar de jeito nenhum. Eu e o pianista Christian Ruvolo estamos ainda redescobrindo a nossa música popular. O cancioneiro popular tem muita harmonia, poesia. Quero passar isso para o instrumental e depois oferecer ao público erudito como algo mais daquilo é feito em nossa terra.
Como está a carreira do CD Descobertas, lançado em 98?
Bem, ele foi feito para deixar um registro do trabalho que estamos fazendo sobre a música brasileira, seja ela popular ou clássica. Inclusive pessoas importantes estão informadas sobre o nosso trabalho, como o professor José Álvaro Moisés, do Ministério da Cultura. O CD está sendo muito bem recebido tanto no Brasil como no exterior. Infelizmente estamos tendo alguns contratempos para oficiá-lo aqui, devido à jurisdição das obras. No exterior está oficializado com tudo que nele contém. Foi distribuído no Norte da Itália; começa a ser agora na Inglaterra; na Alemanha estamos deixando discos em rádios e lojas interessadas. A principal intenção desse CD é que parte do dinheiro arrecadado venha a consolidar nosso trabalho de divulgação dos compositores brasileiros.
Como o europeu recebe a nossa música?
Uma das maiores emoções que tive foi ver o europeu ouvindo música brasileira. Fizemos recitais com salas lotadas, e a gente vê que quebra um pouco o tradicionalismo deles. O europeu na maioria das vezes ouve em casa a obra que vai ser tocada no recital. Ele chega no teatro para um programa comparativo. Nesse caso específico eles não têm nenhum registro, mesmo porque o CD que gravamos foi o primeiro misturando clássico e popular, Mignone com Zequinha de Abreu, Ernesto Nazareth. São compositores desconhecidos para eles.
Qual a reação da platéia?
Eles não sabem a hora em que acaba a música. O brasileiro tem um senso de composição diferente do tradicional. O público quer acompanhar a música, mas aí tem que deixar de lado o conhecimento e liberar a intuição e o sentimento. Quando o número termina os aplausos são diferentes: as pessoas sorriem enquanto aplaudem. Elas são surpreendidas com uma coisa nova, e acho que é por isso que dá certo.
Para elas não existe diferenciação, no programa, do clássico e do popular...
Não existe, o que prova que a boa música agrada a todos. Lógico, a música popular é mais curta do que uma sonata, mas o que interessa é o conteúdo; o que fica é a mensagem. A gente tem sido muito bem recebido, com críticas muito boas.
Com seus novos estudos, como fica a agenda do duo Marczak-Ruvolo?
Pois é, quero dar ênfase especial aos meus estudos de mestrado, mas alguns compromissos são inadiáveis. Tenho consciência plena de que devo aproveitar este momento, é uma oportunidade rara estudar com estes professores, e ainda poder contar com todo este ciclo musical e cultural. Porém, há concertos marcados em Berlim, Milão, Freiburg, Munique e Colônia. E aqueles em que serei solista, aqui no Brasil.
A estas alturas o violino já não lhe traz mais tantos mistérios?
Mistério sempre tem, porque quando você sobe ao palco entra em outro mundo. Passa a mexer com algo que não tem regras.
Você acredita que esteja atingindo aquilo que buscava desde o princípio?
Graças a Deus. Vou começar a tatear sonhos a que sempre aspirei.


