Em busca de nossas origens
PUBLICAÇÃO
sábado, 03 de outubro de 2009
Claudio Yuge<br> Equipe da Folha 
Você já parou para perguntar porque é que de vez em quando as pessoas se referem aos brasileiros como tupiniquins? Claro, isso vem da herança indígena. Só que não para por aí. A língua tupi era a mais falada no Brasil até meados do século XVIII e continua presente no cotidiano de todo o País. No livro ''Dicionário de Palavras Brasileiras de Origem Indígena'', que ganhou recentemente nova tiragem da primeira edição, o médico Clovis Chiaradia reúne mais de 30 mil verbetes capazes de ilustrar melhor nossa própria história, especialmente a do Paraná.
''Dicionário de Palavras Brasileiras de Origem Indígena'' nasceu da curiosidade. ''Desde pequeno me interessei pelas palavras indígenas por causa da cidade onde nasci, Botucatu, que significa ''bons ares'' em tupi. Com o passar do tempo, as palavras ficaram mais complicadas. Fui anotando e guardando os significados'', explica Chiaradia. O livro, com tiragem inicial de mil exemplares, foi lançado no ano passado e hoje está em diversas bibliotecas do Brasil. O sucesso levou a editora Limiar a imprimir mais 500 exemplares.
Parte importante da pesquisa foi o levantamento feito em Curitiba, onde Chiaradia estudou Medicina, na Universidade Federal do Paraná. ''O Estado mais bem documentado era o Paraná, principalmente por causa das pesquisas feitas por Romário Martins (Alfredo, pesquisador do século XIX) e por Ermelino de Leão (Agostinho, presidente da província do Paraná no século XIX).'' O material foi colhido durante 30 anos, com auxílio de livros, jornais e revistas, sem a ajuda da Internet.
Nomeclaturas bastante conhecidas por quem mora no Estado também estão entre os verbetes. Paraná, por exemplo, significa em tupi ''semelhante ao mar''; Curitiba, em guarani, ''muito pinhão''. As Cataratas do Iguaçu, aliás, têm origem em uma lenda tupi-guarani. ''As palavras indígenas são bastante descritivas. Todos os objetos são bem descritos. Tem palavras, por exemplo, que descrevem uma árvore de acordo com sua forma e tamanho'', acrescenta Chiaradia.
Mas por que as pessoas pararam de falar o tupi, sendo que muita gente tem a herança indígena na árvore genealógica? O autor do livro esclarece. ''Aqui se falava tupi até 1780. Era a língua mais falada do Brasil. Era como se fosse o ''inglês'' da época, todo mundo conhecia. Em 1758 o Marquês de Pombal (Sebastião José de Carvalho e Melo) proibiu que a língua fosse falada e ensinada mas no nosso vocabulário falamos tupi diariamente.''
Depois do sucesso dessa pesquisa, a intenção de Chiaradia é de ampliar o dicionário. ''Agora estou usando mais a Internet, que está me ajudando a encontrar mais palavras, a definir e interpretar melhor. Nem todas as palavras são decifráveis'', afirma. ''A segunda edição ainda não tem data para sair mas deve ter pelo menos 2 mil novos verbetes.''
Serviço - Dicionário de Palavras Brasileiras de Origem Indígena, de Clóvis Chiaradia, é publicado pela Editora Limiar e tem 728 páginas, no formato 21 x 28 cm. O livro custa R$ 95.
Palavras indígenas
e seus significados
✍ Iguaçu: água grande
✍ Curitiba: muito pinhão
✍ Paraná: semelhante ao mar
✍ Nhenhenhém: resmungo; falatório interminável
✍ Sapucaí: gritar, cantar (o galo); galo, galinha
✍ Pacaembu: arroio do paca
✍ Morumbi: mosca verde, varejeira
✍ Caipira: próximo do mato
✍ Paçoca: coisa pilada em uma massa
✍ Guanabara: baia curva
✍ Cambé: veado


