Esquecer nosso passado/ É qu‘eu nunca consegui/ Eu fiz que não olhei/ Na frente eu te vi. Esses versos pertencem a uma forma de manifestação popular considerada por muitos estudiosos extinta no Brasil: uma dança típica chamada curraleira. O erro da constatação é comprovado pelo violeiro Roberto Corrêa. O músico percorreu a região do Entorno, ao redor de Brasília, e revelou um verdadeiro manancial folclórico que pouca gente conhece. Entre o material, estavam duas curraleiras.
Desde quando se afastou da Física, primeiro curso em que se graduou, em favor da viola, Roberto Corrêa vem percorrendo o sertão brasileiro atrás de mestres violeiros que lhe ensinem afinações, toques e outras características do instrumento que variam de região para região.
ReproduçãoNeste contato, descobriu que a ligação da viola com a verdadeira música de raiz brasileira escondia um universo de cantorias e festas populares que passam ao largo dos músicos urbanos. Essa variedade de manifestações vem mostrando uma força de sobrevivência espantosa, mesmo sob ameaça constante de extinção. Aproximando-se destas expressões musicais, Roberto Corrêa associou o interesse musical à necessidade de registro e preservação.
Ao lado da pesquisadora Juliana Saenger, sua esposa, Roberto Corrêa desenvolveu um projeto associado à Subsecretaria de Articulação para o Desenvolvimento do Entorno do Distrito Federal, com apoio da Escola de Música de Brasília e da Fundação Cultural do Distrito Federal.
Com a parceria, a dupla de pesquisadores pensa em coletar danças e cantorias por 46 municípios do sertão central do Brasil. Visitando grupos folclóricos de apenas cerca de sete localidades, ambos já recolheram material suficiente para a publicação do CD ‘‘Sertão Ponteado’’, que está editado e impresso, mas ainda não ganhou distribuição nacional nem foi lançado oficialmente.
O disco tem 73 minutos de duração e mais de 20 registros. Mesmo assim algumas cantorias ficaram de fora. Com o grande volume de cantorias a ser recolhido, a idéia agora é lançar uma série de CDs para aumentar a abrangência. São cantos de devoção, de diversão, terços cantados, danças, cantos de trabalho e cantigas de roda coletadas com esmero.
Roberto e Juliana descobrem onde os grupos se localizam e marcam uma data de apresentação. Os grupos se apresentam com toda espontaneidade, enquanto os pesquisadores gravam, em áudio, as cantorias. Não há qualquer sugestão de repertório ou interferência no desenrolar de cada composição ou dança.
Em alguns casos, a fidelidade do registro ressalta acompanhamentos inusitados, como no ‘‘Canto das Fiandeiras’’, em que o canto de trabalho obedece ao ritmo das ‘‘rodas’’ de fiar. Nas catiras, as palmas e as batidas dos pés também foram gravados.
O resultado é um quadro rico de uma musicalidade fortemente arraigada à cultura popular. Foram manifestações como as que estão no CD que deram origem, por exemplo, às duplas sertanejas. A explicação é simples e vem do próprio Corrêa: ‘‘A música caipira foi influenciada pelo rádio. As duplas apareceram como uma forma reduzida das catiras e folias de reis. Como não cabia tanta gente no estúdio, formaram-se duplas. E, como o tempo no rádio é escasso, algumas músicas foram adaptadas para ficar com cerca de três minutos de duração’’, ressalta.
Além da documentação e divulgação de obras esquecidas ou ignoradas - a dupla de pesquisadores entrevistou os participantes e registrou todas as formações dos grupos - o trabalho também é importante como fonte de consulta musical. Como existem poucas gravações, a falta de referência faz com que músicos busquem versões na tentativa de reconstruir ou utilizar elementos dessas obras. Assim, muitas composições com ritmos populares não foram baseadas em formatos originais.
‘‘Trabalhos como esse fazem falta na cultura brasileira. Identidade cultural é algo mais profundo do que um número de RG. Quanto mais conhecemos, mais nos identificamos e construímos nossa própria história. Se a gente não conhecer essas raízes, que são somente nossas, corremos o risco de nos perder, de sermos arrastados. Eu sou a favor de que as pessoas conheçam sua história’’, assegura Corrêa.
Durante as gravações surgiram fatos que surpreenderam até o experiente violeiro. Além das prováveis primeiras gravações de curraleiras em disco, foram registradas também cantigas de roda como ‘‘Tirana’’ e ‘‘Chapéu Preto Acabanado’’, também consideradas inéditas.
Algumas folias de reis gravadas por Corrêa fogem ao formato tradicional: os cantos são realizados sem acompanhamento de instrumentos. ‘‘Nunca escutei isso em disco nenhum’’, revela o violeiro. Outra surpresa foi a catira de Bonfinópolis, cantada a quatro vozes após os toques de viola.
No ‘‘Terço Cantado’’ de Luziânia, também a quatro vozes - uma excelente interpretação - surgem, em meio às preces, rezas em latim, que orientam a maior parte da música.
A neutralidade dos pesquisadores fica evidente no produto final. Não há conceituação ou debates teóricos. Roberto e Juliana se restringem ao registro de áudio e à reprodução, no encarte, dos versos cantados. Alguns textos curtos e depoimentos ajudam a explicar estilos de dança ou festividades.
Outra novidade é que existe, segundo Corrêa, a possibilidade dos dois pesquisadores fazerem um trabalho similar no Paraná, com apoio da Secretaria de Cultura do Estado. O músico revelou que alguns contatos já foram feitos e a possibilidade é grande. Apesar da importância histórica, ‘‘Sertão Ponteado’’ ainda possui circulação restrita. A idéia é que, até o meio do ano, o CD ganhe distribuição nacional.

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