Em busca da masculinidade perdida
Marcos Losnak
Especial para a Folha2
Nem todos possuem a lendária sorte do rei Salomão, um homem que, além do dom da sabedoria, tinham centenas de mulheres à sua disposição. Mulheres para todos os gostos, para todos os prazeres, a qualquer hora do dia, em qualquer dia do ano.
Alguns homens passam toda a existência tentando unir-se a uma mulher sem sucesso. Desejam avidamente uma experiência sexual e, por fatores diversos, morrem privados da possibilidade de prazer.
Pichula Cuéllar, personagem criado pelo escritor peruano Mario Vargas Llosa na novela Os Filhotes, é um desses homens que, diferentes de Salomão, vivem o drama da solidão. Publicada originalmente em 1967, a obra acaba de ser lançada pela Editora Companhia das Letras.
Em Os Filhotes Vargas Llosa narra a história de cinco amigos, da infância à idade adulta. Estudando no mesmo colégio de padres, formam uma unida turma que partilha das mesmas experiências, dos primeiros jogos de bola, passando pela ebulição de hormônios da juventude até chegarem à categoria de respeitados pais de família. Uma união tumultuada pela infelicidade de um dos cinco amigos, Pichula Cuéllar (pichula é um termo peruano utilizado para designar o orgão sexual masculino).
A tragédia de Cuéllar, começa logo após um jogo de futebol na escola. No momento em que o garoto está tomando banho no vestuário, um feroz cachorro foge do canil e invade o vestuário mordendo-lhe o sexo. Levado ao hospital, o menino nunca mais será o mesmo. Recebe o apelido de piroquinha, nome que carregará pelo resto da vida.
Apesar de toda a solidariedade dos amigos, Cuéllar estará condenado a ser excluído de um dos principais sentimentos humanos, o amor. Sua existência será atormentada pelo conflito do desejo frente à incapacidade de sua satisfação.
Trata-se de um argumento semelhante ao desenvolvido pelo escritor norte-americano Ernest Hemingway (1898 - 1961) no romance O Sol Também se Levanta. Publicada em 1926, a história de Hemingway narra os conflitos de Jake, um jovem que, combatendo na linha de frente da Primeira Guerra Mundial, sofreu uma grave lesão nos órgãos genitais. Apaixonado por uma bela moça, Jake adquire a consciência de que o único amor possível para sua condição é o amor platônico. Atormentado, como um tigre enjaulado, aprende a colocar as ilusões no lixo e viver puramente o presente de sua impossibilidade.
Em Os Filhotes, a afirmação da masculinidade de Cuéllar é pautada pela ousadia, pela coragem, pela agressão. A rebeldia contra sua trágica condição é direcionada contra tudo e contra si mesmo. Ao morrer, vítima dos riscos aos quais se atira de maneira compulsiva, seus fiéis amigos estão próximos de uma incapacidade semelhante, a incapacidade de transformar a vida.
Os Filhotes de Mario Vargas Llosa, tradução de Sérgio Molina, Editora Companhia das Letras, prefácio de José Miguel Oviedo, 93 páginas, R$ 13,00.





