Júlio Gama
Agência Estado
Depois de 40 anos de pesquisas, 15 dos quais enfurnado em bibliotecas por até 12 horas diárias, o linguista, arqueólogo e pré-historiador Luiz Caldas Tibiriçá, de 86 anos, concluiu a obra de sua vida, o ‘‘Dicionário de Raízes Primitivas - Estudos Comparativos que Demonstram a Existência de uma Língua-Mãe Pré-Histórica e sua Difusão Universal’’. A pesquisa é única no Brasil e não se tem notícia de outra semelhante no mundo.
O dicionário está pronto, mas falta uma editora. Uma edição resumida de menos de 50 páginas foi feita no início do ano em Brasília, mas não está disponível.
O trabalho está datilografado em pouco mais de 200 folhas de papel-ofício e reúne 400 verbetes. A pilha de papel descansa sobre uma escrivaninha no subsolo da casa que divide com a irmã, em Pinheiros, zona oeste de São Paulo. ‘‘É difícil arrumar editora porque não se trata de um produto comercial’’, diz Tibiriçá. Esse é o sexto dicionário escrito pelo pré-historiador. Em 60 anos de pesquisas, ele já publicou o ‘‘Dicionário de Tupi-Português’’; ‘‘Dicionário de Guarani-Português’’; ‘‘Dicionário de Topônimos Brasileiros de Origem Tupi’’; ‘‘Dicionário de Mitologia Universal’’ e o ‘‘Vocabulário Tupi Comparado’’. O ‘‘Dicionário de Termos Asiáticos e Ameríndios’’ continua inédito.
Para escrever seu ‘‘Dicionário de Raízes Primitivas’’, ele estudou 830 vocábulos, de todos os pontos do planeta e de todas as épocas, como sumeriano (da Mesopotânia), turco, magiar (húngaro), mongol, coreano, japonês, celta, antigo armênio, sânscrito, urdu, dravídico e antigo tâmil (todos da Índia), chinês e himalaio. Para provar que todas as línguas derivam de uma única raiz primitiva, Tibiriçá monta organogramas a partir de algumas palavras, num trabalho demorado e paciente. Só a pesquisa sobre a palavra cavalo demorou três meses. Em 6000 a.C. cavalo era hmar em iraniano hipotético. Em árabe, dizia-se também hmar; em sumeriano, amar; em cita-mongol, mar.
Em gaélico vaca era mar’t; no antigo armênio, mar’an era estábulo; em sudanês mall’o era o nome dado a camelo e por aí vai. De acordo com Tibiriçá, as línguas surgiram de uma raiz primitiva única a partir de sons emitidos pela mímica bucal e mais tarde por onomatopéias. Um dos exemplos que comprovam o monogenismo linguístico a que se refere Tibiriçá: os antigos egípcios denominavam o sapo com um termo idêntico ao utilizado na língua tupi: cururu ou cururuk.
‘‘Tibiriçá faz um trabalho único no mundo’’, afirma o arqueólogo alemão Heinz Budweg, coordenador do Projeto Tapajós, que estuda a pré-história brasileira, do qual Tibiriçá faz parte. ‘‘O que existe no mundo são pesquisas que se limitam a estudar separadamente os vocábulos celtas, os eslavos, etc’’, continua. ‘‘Mas nada com a envergadura da pesquisa de Tibiriçá, que cruzou os principais vocábulos de todos os tempos.’’
Nas expedições do Projeto Tapajós, Tibiriçá entra em cena quando as escavações se esgotam. ‘‘Ele recua 4 ou 5 mil anos até a raiz dos escritos encontrados e consegue refazer a trajetória de determinado povo’’, diz Budweg. ‘‘Ele é o maior linguista da atualidade.’’
Tibiriçá vive com menos de R$ 500. Os convites para palestras estão rareando e eram o que lhe completava a renda. Aos poucos, o pesquisador foi vendendo os imóveis que seus pais lhe deixaram. ‘‘Perdi tudo, fiquei na miséria total, mas não tenho o menor arrependimento’’, diz. ‘‘Alcancei o meu objetivo: descobrir a origem da língua falada apresentando fatos e não teorias.’’
Como o dicionário ainda não está publicado, vez por outra Tibiriçá faz pequenas alterações na obra. ‘‘Estou sempre pesquisando uma raizinha aqui, outra ali’’, diz. ‘‘Não consigo parar.’’ Segue à risca uma frase de Henry Ford, que mantém escrita a caneta e afixada na porta do seu escritório: ‘‘O verdadeiro investigador termina sua tarefa uma só vez em sua vida, quando morre.’’

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