Em busca da liberdade perdida
PUBLICAÇÃO
domingo, 20 de janeiro de 2002
Marcos Losnak 
Quando o nome de Gao Xingjian foi anunciado como o ganhador do Nobel de Literatura de 2000, um curioso fato ocorreu. Os jornais noticiaram algo inédito: pela primeira vez, em toda sua história, o prêmio era concedido a um escritor chinês. Por outro lado, ninguém sabia, nem jornalistas nem leitores, da existência de um escritor chinês chamado Gao Xingjian.
Na época, ficou evidente que Gao Xingjian não havia sido agraciado com o Nobel apenas por sua produção literária, mas por ser um refugiado político chinês que abandonou seu país sob perseguição e fixou residência na França. Nenhum de seus livros havia sido publicado no Brasil. Na verdade ganhava a vida como pintor, não como escritor.
Agora finalmente o leitor brasileiro tem a oportunidade de entrar em contato com a literatura de Gai Xingjian. A Editora Objetiva acaba de publicar A Montanha da Alma, considerado sua melhor obra. O romance levou sete anos para ser concluído no período de 1982 e 1989. As primeiras páginas foram concebidas na China, escondidas no interior do colchão de sua cama.
Em A Montanha da Alma Xingjian não utiliza a tradicional estrutura de um romance. É formado por duas narrativas paralelas que flertam com a unificação. Numa delas, um homem empreende uma viagem pelo interior da China. Em sua jornada, dezenas de pequenas histórias surgem formando uma espécie da paisagem humana. Em outra, o relacionamento entre um homem e uma mulher é apresentado de maneira que a individualidade se revela uma necessidade.
Na definição do próprio Xingjian, o romance é uma busca da linguagem, onde o indivíduo se expressa com toda a liberdade um misto de fábula, diário de viagem e notas sobre a vida cotidiana. Sua intenção era realizar uma narrativa que tivesse uma proposta inversa da que o poder comunista chinês pregava. Ou seja, deixar que o indivíduo experimente todas suas capacidades de sentimento e pensamento, sem ser comandado pelas opressivas forças do coletivo.
É inegável que em A Montanha da Alma Gao Xingjian nascido em 1940 atinge seu objetivo. Dialogando entre a tradição e a modernidade de seu país natal, elege a liberdade como forma de percepção poética do mundo. Mesmo que a sua linguagem tenha forte influência da literatura européia, preserva a força da imagem característica da cultura oriental. As paisagens naturais e as humanas, por exemplo, são colocadas num mesmo espaço.
A impressão que fica é que A Montanha da Alma nunca poderia ser escrito durante a Revolução Cultural promovida pelo governo chinês a partir da década de 60 onde a individualidade era um verdadeiro ato terrorista. Como se na massa, na multidão, não fosse possível a existência de sutilezas e delicadezas.
A Alma da Montanha, de Gao Xingjian, tradução de Marcos de Castro, Editora Objetiva (telefone (21) 2556-7824), 436 páginas, R$ 45,90.
Uma noite glacial no coração do outono. Uma espessa e profunda escuridão afoga a extensão caótica original, o céu e a terra, as árvores e as rochas se fundem, a estrada está invisível, você não pode senão ficar no lugar sem poder desprender seus pés, o busto inclinado para frente, os braços estendidos para tatear nessa noite negra, você ouve alguma coisa se mexer, mas não é o vento, é a escuridão na qual não há mais nem alto, nem baixo, nem esquerda, nem direita, nem longínquo, nem próximo, nem qualquer ordem determinada, você se funde totalmente nesse caos, sabe apenas que seu corpo tem um contorno(...)
(Fragmento de A Montanha da Alma)


