‘‘O homem é uma paixão inútil’’. Com esta frase síntese o escritor e filósofo francês Jean-Paul Sartre (1905-1980) detonou um dos movimentos mais significativos do pensamento deste século, o Existencialismo. Ela não é carregada de um teor niilista onde a existência é uma aventura para si próprio e fatalmente coroada pelo fracasso ou pela morte, mas a corajosa conclusão de um homem.
Esta frase está no final do livro ‘‘O Ser e o Nada’’ que ganha agora sua primeira edição brasileira, lançada pela Editora Vozes com tradução do especialista sartreando Paulo Perdigão. Apontada como a maior das obras de Jean Paul Sartre, ‘‘O Ser e o Nada’’ é uma minuciosa investigação fenomenológica da individualidade humana e, acima de tudo, a busca do sentido último da liberdade.
Mesmo sendo um tratado denso, difícil e em algumas situações de uma obscuridade intransponível, a obra demonstra que o homem está para ser inventado. Para Sartre, ‘‘A existência precede a essência’’. O homem está fatalmente condenado a ser livre para criar sua própria existência, seu próprio projeto existencial.
A liberdade, o ‘‘ser livre’’, não seria meramente obter o que se quer, o que se deseja, mas a determinação para escolher. O fato de poder escolher, de exercer esta escolha, nos torna inteiramente responsáveis pelas consequências da escolha. Mas o êxito da escolha não determina nem importa à liberdade.
Um exemplo muito citado é este: um homem preso não é livre para sair da prisão, nem determinantemente livre para desejar a sua libertação, mas com certeza é sempre livre para tentar fugir da prisão.
A moral sartreana está baseada na liberdade do homem plenamente responsável por si mesmo, ao mesmo tempo responsável por toda a humanidade. Ao escolher para si mesmo também está escolhendo para os outros, seja na escolha solitária, ou na escolha coletiva.
Escrito durante a Segunda Guerra, ‘‘O Ser e o Nada’’, publicado originalmente em 1943, está distante da fase politicamente engajada de Sartre. Pode-se perceber dois movimentos na obra filosófica e literária do escritor, uma baseada na ação do indivíduo em si mesmo e outra baseada na ação do indivíduo sobre a história. ‘‘O Ser e o Nada’’ faz parte do primeiro.
Para Jean-Paul Sartre, não é na liberdade de cada pessoa que a ‘‘liberdade humana’’ esbarra em seu limite, mas no poder econômico, no poder de tirar a vida de outro, na exploração do trabalho e no poder do Estado. Ou seja, o poder trabalha para anular a liberdade de cada um. Isso se tornou tão subliminar que não mais percebemos suas consequências em nossas próprias vidas.
As idéias do ‘‘velho’’ Sartre, vistas aos olhos de hoje, mostram que a liberdade ainda está jogada no quarto de despejo da casa de nossa existência. Em alguns momentos podemos admitir que a liberdade ficou desacreditada, seu sentido mais íntimo foi distraidamente esquecido. Liberdade se tornou o fato de escolher entre esta ou aquela mercadoria. Este seria o atual direito de escolha. As prisões se tornaram invisíveis, sutis, mas aniquiladoras. A vida perdeu seu sentido.
qO Ser e o Nada - Ensaio de Ontologia Fenomenológica- de Jean-Paul Sartre - tradução de Paulo Perdigão, Editora Vozes, 782 páginas, R$ 48,00.

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