EM BUSCA DA 'ÉTICA DO CORPO'
PUBLICAÇÃO
domingo, 06 de maio de 2001
Jackeline Seglin De Londrina 
A dança como antídoto contra a situação de violência é o trabalho que a instituição El Colegio Del Cuerpo desenvolve há quatro anos na Colômbia. O grupo experimental, dirigido pelo coreógrafo colombiano Alvaro Restrepo e pela pedagoga francesa Marie-Francie Delieuvin, realiza um trabalho estético e social com jovens de 14 a 17 anos pertencentes a classes humildes da cidade de Cartagena.
Oito desses alunos estão em Londrina para mostrar parte do resultado conquistado até agora. Elas fazem uma das estréias de hoje do Festival Internacional de Londrina (Filo), com os espetáculos Variaciones Sobre Una Danza Coreana e El Alma de Las Cosas, que serão apresentados às 21 horas, no Cine-Teatro Ouro Verde.
O trabalho realizado desde 1997 com os menores parte do que Restrepo chama de uma nova ética do corpo. O assistente de direção, Leopoldo Gambariza, explica que, no contexto da Colômbia, um país tão atormentado pela violência, esses jovens voltam a considerar o corpo humano como ponto de partida sagrado da vida. O processo propicia noções de auto-estima, respeito, consideração e cuidados com o próprio corpo e o do seu semelhante. É o ponto de partida de qualquer estratégia pedagógica e criativa, diz. O grupo toma a dança contemporânea como um dos canais para propor essa ética do corpo.
O primeiro espetáculo foi montado há um ano e meio. Variaciones Sobre Una Dança Coreana é uma recriação de Alvaro Restrepo de uma antiga dança abstrata. A lenda diz que cortesãs a usavam para apaziguar a ira do imperador, conta o assistente. Ritmada pela respiração, a coreografia é absolutamente lenta. Além disso, explicita um sincretismo cultural ao unir no palco bailarinos colombianos, a dança coreana e música espanhola.
Em El Alma de Las Cosas, espetáculo montado no ano passado, todos os movimentos foram criados pelos alunos, sob a direção de Alvaro Restrepo. Ele montou um espetáculo no qual os objetos determinam os movimentos dos bailarinos. É a relação entre objeto e bailarino e de como o objeto marca a movimentação e se converte em objeto dançante, detalha Gambariza.
A criação coletiva nasceu de um trabalho numa oficina de objetos. Ao longo de algumas semanas, cada integrante do grupo escolheu um objeto da sua preferência. A partir daí, os menores passaram a desenvolver movimentos que procuravam revelar a alma dos objetos, a linguagem oculta da matéria.
Para o grupo, a descoberta da força dentro de cada objeto representa a conquista individual dos jovens. A dança desperta a alma das coisas e, às vezes, o espírito humano.
A instituição coordenada por Alvaro Restrepo e Marie-Francie Delieuvin (ela, do Centre National de Dance Contemporaine de Angers, na França) selecionou 12 menores entre 450 alunos de um colégio colombiano, o Instituto Nacional de Educação Média. Jovens de classe média e baixa, os alunos descobriram novas possibilidades através do projeto.
O bailarino Jair Luna, de 14 anos, comenta que faltava algo especial na sua vida. Morador de um bairro popular de Cartagena, ele afirma ter encontrado no projeto o que procurava. Enfrentou preconceito por parte dos amigos por ter se tornado um bailarino, mas agora conta com total apoio dos colegas. Questionado sobre o futuro, Jair descarta outras possibilidades profissionais e diz que vai abraçar a dança. Quero ser bailarino porque é o que me completa.
Leopoldo Gambariza observa que para esses menores abriu-se um horizonte ilimitado de possibilidades de expressão. Depois de quatro anos, são visíveis os resultados de otimização. Dá para ver no trato entre eles e na forma em que se relacionam com suas famílias e com a comunidade de origem, sinaliza. O projeto de Restrepo tem apoio do Ministério da Cultura colombiano.
Variaciones Sobre Una Danza Coreana e El Alma de Las Cosas Com o grupo experimental de El Colegio del Cuerpo, da Colômbia. Direção: Alvaro Restrepo. Duração: 1h05.


