Em busca da dignidade
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 30 de abril de 2018
Carlos Eduardo Lourenço Jorge<br>Especial para a Folha 2 

O título original do filme, "The Leisure Seeker", é ainda menos recorrente que este "Ella e John" que a distribuidora escolheu para o lançamento no Brasil. O original é o nome do velho trailer com que em 1975 a dupla de personagens principais, os aposentados John e Ella Spencer, percorreu os Estados Unido em muitas férias familiares desfrutadas durante o meio século que passaram juntos. O veículo foi testemunha de como o professor universitário de Literatura e sua extraordinária esposa viveram com paixão a primeira fase de sua relação, como foram chegando os filhos (um casal) e como foram envelhecendo até se tornarem nos dias de hoje duas pessoas doentes e dependentes de permanentes cuidados médicos.
O filme concentra a ação desde a saída da empoeirada garagem do "The Leisure Seeker" (em tradução fiel ao espírito da aventura, seria o caçador de diversão), quando começa a última viagem desde Boston, Massachusetts, até Key West, na Flórida. Destino final: a casa de Ernest Hemingway, um dos ídolos do professor. Num ato de rebeldia, John e Ella escapam da superproteção dos filhos para ficar um tempo sozinhos, apesar do galopante Alzheimer que obriga John a contínuos lapsos de memória quando chega a não reconhecer a mulher ou a pensar que tem de novo 30 anos, e apesar da gravidade da doença de Ella. Logo se percebe que esta serão as últimas "férias" de suas vidas.
Baseado em novela de Michael Zadorian, o argumento-roteiro do filme não é exatamente um modelo de novidade no gênero a que se propõe, já que se vale de robusta galeria de déjà vu. Assim, a sensibilidade do espectador está constantemente antenada para alternar momentos melancólicos (muitos deles sombrios, acentuando o drama) e passagens mais leves, que vão temperando e colorindo um pouco as coisas quando as emoções dos protagonistas se tornam mais carregadas. O sorriso do espectador ameniza assim a resignação de dois idosos diante do ocaso de suas existências. Uma resignação que não deixa nunca de buscar a dignidade, apesar dos prognósticos nebulosos.
Para o diretor italiano Paolo Virzi esse é seu primeiro filme em inglês, mas não sua primeira road trip. Antes já havia reunido duas ensandecidas fugitivas (uma esquizofrênica, outra bipolar) em "Loucas de Alegria", de 2016. Embora aqui menos latino, vale dizer, menos rédea solta com certeza por conta da porção USA da produção, Virzi dá uma boa lição de como transgredir o mapa dos clichês e da previsibilidade, abrindo a história para horizontes insuspeitados. A surpreendente meia hora final de "Ella e John", quando a dupla de intérpretes deixa fluir mais a espontaneidade, eleva o filme às alturas que parecia incapaz de alcançar.
Maravilhosos ambos, Ellen Mirren e Donald Sutherland prestam inestimável serviço à introspecção que o diretor Virzi pretendeu como principal recheio de sua narrativa. A dupla de veteranos (82 ele, 73 ela) está à altura daqueles grandes momentos de "Num Lago Dourado" (Henry Fonda/Katharine Hepburn, 1981) e de "Um Caminho Para Dois" (Audrey Hepburn/Albert Finney, 1967). Como sempre fantástica Helen Mirren (o que dizer de seus olhares de profunda tristeza cada vez que assiste às falhas de memória do marido). Mas é Donald Sutherland quem conquista por inteiro a plateia como o maravilhoso John, este homem inteligente que, mesmo lutando contra as vilanias de Al, ainda é capaz de citar de memória sim trechos de Joyce e Hemingway e, ainda, externar todo o amor à esposa Ella.


