A coisa começa quase sempre de brincadeira. Com o passar do tempo, ocupa espaço cada vez maior entre os afazeres domésticos. Um dia, o que era apenas um trampo descompromissado vira um negócio lucrativo que transforma o artesão em um microempresário de sucesso.
Essa história é manjada. Você já deve tê-la ouvido em variadas versões por aí, especialmente tendo como personagens pessoas desiludidas com seus empregos ou profissões. Mas o sonho de desenvolver uma atividade autônoma que seja ao mesmo tempo criativa e rentável é acalentado também por jovens sem nenhuma experiência no mercado de trabalho.
‘‘Meu pai sempre dizia para não dependermos de mesadas, que a gente deveria trabalhar para ter a própria grana. Então, desde pequena eu já fazia presilhas e vendia na escola para as amigas’’ - conta Juliana Barzotto Spalodore, 18 anos, uma estudante de Relações Públicas que acorda mais cedo aos domingos para tocar uma barraca na Feira do Artesanato do Armazém da Moda.
Borrões de tinta Ali, junto com o namorado, ela comercializa peças de roupa tingidas com o método tie-dye, pelo qual pequenos segmentos do tecido são amarrados com linha formando ‘‘borrões de tinta’’ localizados. Na barraca, expõe ainda artigos de tapeçaria - principalmente bolsas e carteiras - feitos por sua irmã Ana Karina.
As duas contam que se iniciaram cedo na prática do artesanato herdando a vocação da mãe e sendo estimuladas precocemente na escola. ‘‘Acho que nossa formação no Instituto Educação Infantil ajudou bastante, porque lá os alunos mexem com carpintaria e fazem bonecos a partir de refugos de materiais’’ - lembra Karina.
Embora tenha feito companhia para a irmã na barraca, domingo passado, Karina confessa não gostar da ‘‘parte de vendagem, de oferecer os produtos’’. ‘‘Não tenho muito jeito para isso. Eu prefiro ficar em casa fazendo por encomenda’’ - diz.
Vizinhos Produzir por encomenda, aliás, é o objetivo de Adriana F. M. Sanches e Andréa Nascimento, que também estão instaladas na feira do Armazém onde comercializam caixas artesanais de presentes. Ainda patinando no negócio, as duas perceberem que não compensa produzir para fazer estoque.
‘‘A gente viu que algumas caixas saem fácil, e outras não. Daqui para a frente só vamos fazer através de pedidos’’ - revela Adriana. A dupla decidiu criar a sociedade como um ‘‘quebra-galho’’ enquanto aguarda melhores oportunidades profissionais. Adriana é formada em Pedagogia, e Andréa em Música.
No trabalho, elas economizam o máximo que podem com o material utilizado. ‘‘Usamos estilete, água e papel reaproveitado de caixas de papelão de supermercado’’ - contam. A maioria das caixas de presentes traz desenhos e cores natalinas. Algumas papelarias se interessaram pelo produto, que agora está sendo oferecido em empresas e casas dos bairros onde as duas garotas moram.

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