Em algum lugar do passado
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 13 de março de 2012
Mariana Trigo <br> TV Press 
Extensas pesquisas em antiquários, feiras de antiguidade, bibliotecas e longas horas esmiuçando sites de compra de objetos vintage ou seculares faz parte do dia a dia dos cenógrafos, produtores de arte e até figurinistas destinados a reproduzir histórias de tempos atrás.
A cada novela ou minissérie de época que começa a ser pré-produzida, uma grande equipe é convocada para garimpar utensílios, mobiliários e vestimentas de épocas passadas. Tudo para trazer o máximo de verossimilhança na retratação dos cenários, cidades cenográficas e toda a ambientação das produções históricas, como ''A Muralha'', da Globo, que comemorou os 500 anos do descobrimento do Brasil, em 2000.
No entanto, nem sempre se encontra em livros ou antiquários objetos que normalmente estão em museus. Por isso, por diversas vezes, para reproduzir épocas muito longínquas, é necessário criar réplicas ou mesmo inventar artefatos que possivelmente eram usados séculos atrás.
É o caso, por exemplo, de produções que se passam centenas de anos antes de Cristo, como a minissérie ''Rei Davi'', da Record. ''Sabemos que não vamos encontrar nada pronto dessa época para vender. Temos de reproduzir cada objeto. Para isso, interpretamos artisticamente o que o povo da época sabia fazer com madeira ou como trabalhavam as pedras, por exemplo'', explica o diretor de cenografia da Record, Daniel Clabunde.
Assim como na minissérie ''Sansão e Dalila'', que também se passava muitos anos antes de Cristo, cada detalhe precisa ser pensado de acordo com os costumes do período histórico retratado. Para Alexandre Farias, diretor de arte da Record, até o tipo de cor utilizado tem de ser escolhido com cautela. Afinal, os pigmentos dessa época, assim como no período em que se passa ''Rei Davi'', eram extraídos da natureza. ''Os hebreus eram ótimos agricultores e faziam pigmentos. O verde, por exemplo, vinha da hortelã, da carqueja. O roxo, da beterraba, do figo e da uva'', exemplifica Alexandre.
Cada um desses detalhes faz diferença quando se analisa o resultado estético e a veracidade das locações e dos detalhes de arte das histórias. No entanto, as ''artes'' nas produções de teledramaturgia também precisam ''dialogar''. Sendo assim, normalmente todo o trabalho de cenografia e produção de arte também precisa ser compatível com o que está sendo pensado e produzido pela equipe de figurino.
Para a figurinista Beth Filipecki, que assinou a rebuscada indumentária da minissérie ''Capitu'', na Globo, o cenário e o figurino se completavam na produção. O mesmo tipo de pesquisa foi utilizada nas minisséries ''A Pedra do Reino'' e ''Hoje É Dia de Maria'', todas de Luiz Fernando Carvalho. ''A ruína estava no cenário e o figurino trazia a beleza. Esse casamento era fundamental. Tudo tem de ser pensado em conjunto'', assegura Beth, que dá aula de indumentária dos Séculos XVIII, XIX e XX há 25 anos. ''Gosto de trabalhos que me estimulem a pensar, nos quais o tratamento artístico desabrocha'', ressalta.
Compor cenografia e produção de arte de décadas mais recentes, no entanto, tem a vantagem de se encontrar objetos com maior facilidade, principalmente com a valorização do estilo retrô. Para ''O Profeta'', de Walcyr Carrasco, que se passava na década de 50, os cenógrafos Zé Cláudio Ferreira e Eliane Heringuer assistiram a diversos filmes da época, utilizaram vários livros como referência e, por indicação do autor, ainda fotografaram várias construções da época em São Paulo. ''Nosso cuidado é para não fazer um documentário, mas transportar as pessoas para a época proposta. Queremos que elas lembrem da casa da avó com os objetos e cenários'', destaca Zé Cláudio.


