Elza Soares: às vésperas de completar 88 anos, em junho, cantora está mais contemporânea que nunca
Elza Soares: às vésperas de completar 88 anos, em junho, cantora está mais contemporânea que nunca | Foto: Daryan Dornelles/ Divulgação



Nascida naquele que considera o país mais preconceituoso do mundo, Elza Soares tomou pra si a missão de cantar o que se cala. A cantora que sentiu na pele as agruras enfrentadas por ser mulher, negra e pobre usa sua poderosa voz para falar de temas urgentes como a intolerância religiosa, o racismo, o feminismo e os desmandos políticos no Brasil. Questões que estão presentes nas 11 faixas do álbum "Deus é mulher", lançado na última sexta-feira (18) nas plataformas digitais e que em breve chegará às lojas físicas no formato de CD, LP e fita cassete.

"Deus é mulher" é o 33º disco de Elza Soares e reúne 11 faixas inéditas assinadas por nomes da 'nova' mpb, como Tulipa Ruiz, Kiko Dinucci, Douglas Germano e Romulo Fróes, entre outros. Com atmosfera punk, o novo trabalho é produzido pela mesma turma que arquitetou o premiadíssimo "A mulher do fim do mundo" (álbum lançado em 2015), que a recolocou a cantora no olimpo das grandes estrelas da música rendendo elogios da imprensa mundial e a conquista de importantes premiações, entre elas o Grammy Latino.

Apesar de trabalhar com a mesma equipe capitaneada pelo produtor Guilherme Kastrup, com coprodução de Romulo Fróes, Marcelo Cabral (baixo e bass synth), Rodrigo Campos (cavaquinho e guitarra) e Kiko Dinucci (guitarra, sintetizador e sampler), Elza tem enfatizado algumas peculiaridades do novo disco ao ressaltar que enquanto "A mulher do fim do mundo" era mais soturno, "Deus é mulher" é mais aberto e solar.

Às vésperas de completar 88 anos em 23 de junho, Elza Soares está ainda mais contemporânea. Em plena forma vocal, a cantora não usa meios-termos para falar de questões incômodas. A luta pela liberdade feminina é representada pelos versos diretos das músicas "Eu quero comer você" (composta por Romulo Fróes e Alice Coutinho), "Dentro de cada um" (Pedro Loureiro e Luciano Mello), "Deus há de ser" (Pedro Luís) e "Banho", que diz "misturo sólidos com os meus líquidos / Dissolvo pranto com a minha baba / Quando tá seco, logo umedeço / Eu não obedeço porque sou molhada", na letra assinada por Tulipa Ruiz. A canção é embalada pelas percussões do bloco afro paulistano Ilú Obá Min, formado somente por mulheres.

Vociferando contra a intolerância religiosa, Elza dá seu recado sobre o tema na faixa "Credo", de Douglas Germano ('Sai pra lá com essa doutrinação/Eu não quero o medo me dando sermão/O castigo que serve só para vender o perdão'). A religião também é abordada em "Exu nas escolas", composição de Kiko Dinucci e Edgar usada como um recado ao movimento Escola Sem partido. A letra da música defende o ensino das religiões afro como referência à beleza da mitologia e à ancestralidade dos brasileiros.

"Vemos uma Elza Soares cantando a partir de um lugar potente, num elo com as gerações mais jovens. Como autora do livro 'O que é Lugar de Fala', fiquei particularmente tocada em ver uma mulher como ela, uma das maiores cantoras brasileiras, rompendo com silêncios históricos e emprestando sua voz para amplificar as nossas. Uma generosidade para quem ainda precisa se calar perante a vida. Elza fala por milhares, canta a liberdade", afirma no release de apresentação do disco a feminista e pesquisadora na área de Filosofia Política, Djamila Ribeiro.

Serviço:
Álbum 'Deus é mulher'
Gravadora Deckdisc

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