Há 37 anos, a cantora Elza Soares gravou seu primeiro disco, deixou a favela, ganhou o asfalto e o mundo. Assim que descobriu o outro lado da vida, e passou a comer bem, teve dentro de si um desejo: criar uma fundação para amparar as crianças pobres. O sonho tantas vezes acalentado está prestes a se realizar - caminham a passos largos as negociações com o município do Rio de Janeiro para a doação de um terreno em Campo Grande, bairro da zona oeste onde a cantora nasceu e, portanto, onde ela quer erguer a sua fundação.
As obras iniciam-se assim que for cedido o espaço. Enquanto isso não acontece, Elza mantém a carreira em dia, com muito trabalho, e dá continuidade a outro projeto igualmente ambicioso: a criação de um selo fonográfico. Já tem a artista que vai inaugurar a gravadora. Chama-se Janaína. Além disso, no Carnaval de 1999 será tema da Escola de Samba Sereno, do grupo C, de Campo Grande.
Só boas notícias para a cantora que lutou muito, perdeu muito e ganhou outro tanto graças à bendita persistência. Lanhada pela vida, sobe ao palco, ajoelha-se, canta ‘‘Meu Guri’’, de Chico Buarque, e chora. Foi assim no Teatro Ópera de Arame, semana passada, em Curitiba, ao apresentar-se no programa de Agnaldo Rayol. Miúda, a mulher agigantou-se na interpretação. ‘‘Esse guri da música é o mesmo que conheci e conheço. Sambar em cima dele é difícil’’, comentou depois no camarim.
‘‘É chegada a hora de o artista não estar só no palco’’, afirma Elza. ‘‘Se cada um de nós, neste País, desse um real, não teria gente passando fome.’’ Determinada, ela sabe o que quer para sua fundação. Um local onde as artes sejam incentivadas, como a dança, teatro, música. É uma maneira de se evitar a ociosidade e de impedir que se tornem alvo fácil dos bandidos, que as amealham para um destino perverso de drogas, violência e morte.
Os filhos não devem ser abandonados pelas mães, reclama a cantora. Ela coloca sua carreira como exemplo de quem foi trabalhar fora e mesmo assim não colocou no mundo ‘‘filho vagabundo’’. Sem condições para a ambicionada fundação, em tempos passados, Elza Soares procurava trabalhar o lado social de alguma forma. Chegou a cuidar de até 40 crianças em alguns momentos da vida.
‘‘É um sonho que se realiza’’, diz aliviada, vendo que sua fundação deixa de ser quimera. Ao mesmo tempo está vindo aí um novo selo musical, através da ECS Assessoria e Marketing, empresa criada pela artista. ‘‘Terei a minha marca e Janaína será minha primeira contratada’’, avisa.
Janaína gravou discos pela PolyGram e RCA. O último foi em 1982; durante dez anos cantou no exterior e agora tem a oportunidade de voltar aos estúdios. O repertório para seu primeiro CD será de músicas alegres. ‘‘Quero cantar o lado bonito da vida’’, declarou. O produtor será José Milton, um dos mais conceituados do meio.
Contabilizando os anos dedicados à arte, Elza Soares diz que a caminhada vai além de quatro décadas. O primeiro disco veio em 1961, mas antes disso tinha outra estrada de determinação e fé. A permanência nos palcos deve-se à consciência do papel do artista. ‘‘Os cantores de minha época sempre respeitaram a arte e o público, se vestiam para se tornar bonitos aos fãs, tudo que fazem é para o público. E a resposta é essa que você vê: a gente existe.’’DivulgaçãoElza Soares: ‘‘Se cada um de nós, neste País, desse um real, não teria gente passando fome’’Zeca Corrêa Leite

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