Elza Soares, a voz potente da mulher brasileira
Símbolo de superação, a cantora fala sobre sua trajetória e da luta a favor das mulheres em entrevista exclusiva à FOLHA
PUBLICAÇÃO
sábado, 07 de março de 2020
Símbolo de superação, a cantora fala sobre sua trajetória e da luta a favor das mulheres em entrevista exclusiva à FOLHA
Marcos Roman - Grupo Folha 
Mulher, negra, favelada, que se casou aos 13 anos por imposição do pai, sofreu violência doméstica e viu seus dois primeiros filhos morrerem por desnutrição. A história de Elza Soares poderia ser resumida em tragédias, mas assim como muitas outras brasileiras que comemoram neste domingo (8) o Dia Internacional da Mulher ela soube dar muitas voltas por cima e atualmente vive o seu apogeu.
Eleita a melhor cantora do século XX pela Rádio BBC de Londres, a artista acaba de ser homenageada na Sapucaí como enredo da Escola de Samba Mocidade Independente de Padre Miguel, recebeu no ano passado o título de Doutora Honoris Causa da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, lançou uma trilogia de álbuns aclamados pela crítica e ganhou três Grammy Latinos.
A voz potente, rouca e dona de um suingue único de Elza Soares levou a cantora ao seu merecido lugar no olimpo da música popular brasileira. Mas antes de chegar no topo enfrentou obstáculos que pareciam intransponíveis.
Nascida na favela da Vila Vintém, subúrbio do Rio de Janeiro, filha de uma lavadeira e de um operário, numa família pobre composta por dez irmãos, era acostumada a brincar com os meninos, soltar pipa, piões de madeira e ter muitas brigas. Aos 13 anos, teve o vestido rasgado por um vizinho adolescente durante uma luta na rua. Ao ver a cena e suspeitando que algo mais grave tinha acontecido entre os dois jovens, o pai dela obrigou-os a se casarem.
Aos 15 anos Elza já havia dado à luz dois filhos, ambos morreram ainda recém-nascidos, com poucas semanas de vida por estarem desnutridos. Aos 21 anos, ficou viúva do primeiro marido que morreu de tuberculose. Em meio a tantas dificuldades trabalhando como encaixotadora e empregada doméstica, Elza acalentava o mesmo sonho compartilhado entre grande parte dos jovens da década de 1950: tornar-se uma estrela do rádio.

E lá foi ela em 1953 tentar a sorte no programa “Calouros em Desfile”, apresentado por Ary Barroso, na rádio Tupi. Vestindo roupas emprestadas da mãe muito maiores que os seus 40 quilos e que foram presas com alfinetes, a cantora extremamente magra, malvestida e com aparência sofrida ouviu do apresentador a pergunta que se tornou lendária: de que planeta você veio, minha filha? “Do planeta fome”. A resposta dada pela jovem de 23 anos, que ganhou o prêmio do programa de Ary Barroso cantando a música “Lama” se tornaria uma das bandeiras que carregaria ao longo de sua longa trajetória que ultrapassa seis décadas.
Depois de atuar como crooner de orquestra e de ser conhecida nacionalmente com o hit “Se Acaso Você Chegasse” (Lupicínio Rodrigues), o maior sucesso de seu primeiro disco gravado em 1959, Elza viveu um tórrido romance com o jogador Mané Garrincha. A paixão que teve início em 1962 resultou num casamento que durou 17 anos e teve um começo conturbado pelo fato de o craque ainda estar casado quando conheceu a cantora. Neste período Elza acabou virando uma persona 'non grata' pela torcida do Botafogo que a acusava de ser responsável pela derrocada profissional de um dos maiores astros do futebol brasileiro daquela época.
As polêmicas na vida pessoal não impediram a cantora de fazer carreira na Europa e nos Estados Unidos, onde substituiu Ella Fitzgerald e chegou a ser comparada a Louis Armstrong. No Brasil, depois de passar por muitos altos e baixos, tem sido ovacionada pelo público e pela crítica desde que lançou o disco “A Mulher do Fim do Mundo” (2015), seu 32º álbum, que traz apenas composições inéditas de músicos ligados a cena paulistana. O trabalho ganhou o Grammy Latino 2016 na categoria Melhor Álbum de Música Popular Brasileira. Na sequência vieram “Deus É Mulher” (2018) e “Planeta Fome” (2019). Os três discos têm sonoridade roqueira e fortes discursos políticos com letras que tratam de temas urgentes como violência doméstica, transsexualidade, narcodependência, racismo e homofobia.
A cantora que em décadas passadas chocou o país por, aos 70 anos, se envolver em paixões com homens 45 anos mais jovens teve oito filhos, sete frutos de vários de seus relacionamentos e uma menina adotada. Além dos dois primeiros que morreram por desnutrição, perdeu o filho “Garrinchinha”, que teve com Mané Garrincha, e que morreu em 1986, aos 9 anos, em um acidente de carro. E mais recentemente enfrentou a morte de seu quarto filho, Gilson, que faleceu em 2015, aos 59 anos, vítima de complicações de uma infecção urinária.
Em entrevista à FOLHA, os áudios enviados por Elza Soares por meio de um aplicativo de mensagens demonstram que prestes a completar 90 anos de idade no mês de junho a cantora continua em plena potência. A exemplo da figura mitológica que encarna nos palcos em cenários suntuosos - nos quais se apresenta como uma rainha - ela fala com a propriedade de quem viveu na pele tudo o que canta e não deixa evidências das limitações físicas impostas pela idade. Na plenitude da maturidade, a intérprete que além de ter sido enredo do Carnaval carioca já teve sua trajetória revivida em filme, documentários e musical, falou sobre sobre a consagrada fase profissional que está vivendo, sua luta a favor das minorias e projetos futuros. Confira os áudios da entrevista no podcast produzido pela reportagem da FOLHA.

Como avalia esse momento tão consagrador que tem vivido ultimamente? Imaginava que um dia iria viver toda essa glória?
Eu não estou vivendo glórias, não. Estou colhendo os frutos que plantei, pra mim, pra você e pra todos.
Você tem sido citada como fonte de inspiração para várias gerações de novos artistas. Como analisa a relevância de Elza Soares para a música popular brasileira?
Eu canto aquilo que gosto, aquilo que me faz bem e que faz bem a outras pessoas também. É isso que faço: eu canto!
O que acha da ascensão do movimento feminista no Brasil? O que podemos comemorar neste Dia Internacional da Mulher e o que devemos reivindicar?
Já alcançamos muita coisa. Não foi pouco. Mas nos falta muita coisa ainda.
O que representa pra você tornar-se uma porta-voz das mulheres, negros e comunidade LGBTQI+? Quais seriam os caminhos para o país evoluir nestas áreas?
Eu defendo quem me defende. Acho que não estou fazendo nada demais. Estou participando e convivendo com eles.
Quais são seus projetos pessoais e profissionais para 2020?
Nós estamos preparando alguma coisa de surpresa. A gente tá ainda buscando, depois a gente fala disto.
Confira o podcast com Elza Soares:


