Poucas cantoras da MPB as veterenas principalmente conseguem lá pelas tantas pular de casa em casa sem quebrar telhas. Elza Soares, até que se derrube a tese, é a única intérprete ainda em atividade que pousa seu peso artístico em vários gêneros sem dar margens a conotações oportunistas. A independência futebol clube, conquistada por obra e graça do esnobismo de gravadoras e futricas transversais, acabou por lhe ressaltar a arte de dançar miudinho para manter-se em evidência os trancos da vida pessoal e artística, mesmo à sua revelia, acabaram por alimentar o mito. A dignidade e o talento serviram de escudo para Elza, a eterna ''mulata assanhada'' do samba...do jazz, da bossa, do blues, do choro, do samba-canção, do rock, do pop, de tudo que se insinua música de qualidade ao seu eclético gosto.
No momento Elza Soares passeia sestrosa pelo hip hop. Eis ela em ''Do Cóccix até o Pescoço'', 26º álbum de carreira (não computada, evidentemente, a baciada de compactos simples e duplos, coletâneas e participações especiais). Moderno e instigante são adjetivos menores a serem disparados ao CD, lançado pela gravadora independente Maianga, que poderá também ser adquirido nas bancas de jornais, a partir de quarta-feira, ao preço de R$ 14,90.
Elza cercou-se de gente hábil para produzir o disco. A começar por José Miguel Wisnik, na direção musical, e Alê Siqueira, o produtor. Músicos consagrados se revezam nas 14 faixas aí incluída o bônus Track ''Façamos (Vamos Amar)'', versão de Carlos Rennó para canção de Cole Porter, em que duela com Chico Buarque ao microfone, e relativamente conhecida por ser a música de abertura da novela ''Desejos de Mulher''. Um mimo já que o grosso, o bom da coisa está nas faixas anteriores.
Generosos, compositores consagrados e outros menos visíveis cederam dez faixas inéditas para ''Do Cóccix até o Pescoço''. ''Dura na Queda'', samba feito especialmente para ela por Chico Buarque, abre o disco. As quebradas do violão de Luiz Brasil rompem o tradicionalismo. De Ben Jor, Elza recebeu o samba-funk ''Hoje é Dia de Festa'', com direito a metais, percussão e scretchs do badalado Dj Cia.
O disco no entanto é mais marcante pelas canções de protesto. Elza, com toda propriedade, dá voz aos menos favorecidos, em especial os negros. Arrepiante vê-la cantando ''A Carne'' (Marcelo Yuka/Seu Jorge/Wilson Cappellette), originalmente gravada pelo grupo Farofa Carioca. Vozes dobradas, violão drive e riscos de pick-up reforçam o grito verdadeiro de Elza em refrão contundente: ''a carne mais barata do mercado é a carne do negro''. O melhor, a síntese do disco aí se encontra. Ao piano, em tom instimista, a artista se rende à crueza poética de ''Flores Horizontais''(Oswald de Andrade com melodia de José Miguel Wisnick) uma metáfora cortante sobre as prostitutas.
O protesto se reforça com as inéditas ''Etnocopop'' (Carlinhos Brown) e ''Todo o Dia'' (de ABM de Aguiar) e encontra eco em ''Haiti'' eis a versão definitiva à emblemática canção de Caetano Veloso e Gilberto Gil. O alívio, se é que assim pode ser chamado, vem com a bela e dolorosa canção de ciúme ''Dor-de-Cotovelo'' (Caetano Veloso), a ingênua ''Cigarra'' (em que Elza inaugura parceria com a atriz Letícia Sabatella, bela voz por sinal) e o choro ''Bambino'' (de Ernesto Nazareth que ganhou letra de José Miguel Wisnick).
É um disco sem meias palavras, sem meias verdades. A realidade cuja maquiagem a chuva desbotou. Em ''Do Cóccix até o Pescoço'', Elza vira porta-voz das mazelas de putas, negros, marginalizados, enfim, de gente cuja vida pode ser modificada por flechas de um leviano cupido, balas perdidas disparadas por sujeito indeterminado ou, principalmente, pelo descaso de um negócio tão injusto e míope por aí chamado de sistema. De tão bom, o disco chega a incomodar!
A seguir os principais trechos da entrevista que Elza Soares concedeu à Folha2, por telefone. Em tempo: a artista se apresenta no dia 12, em Londrina, com o cantor Miltinho dentro do projeto ''Royal Golf in Concert'', da Teixeira & Holzmann. Só para convidados.
Podemos dizer que nesse disco você dá um tempo para a sambista flertar com o hip hop?
Eu acho que a sambista se infiltra no meio disso. A gente não deixa de ser o que é para fazer outra coisa. Quando você se dá o direito, se dá ao luxo, quando se tem capacidade de fazer o que fiz, por favor faça.
É um flerte rápido ou um namoro firme?
É namoro, cara, é namoro sério com o hip hop. Aliás, minha vida sempre foi um hip hop.
Sua vida é um rap, né?
Totalmente, totalmente.
Esse disco é uma mudança de estilo ou apenas um trabalho conceitual?
Olha, trata-se de um disco capaz porque tem boas letras, bons compositores, uma parte rítmica poderosa, harmonia maravilhosa. Então, eu considero esse disco muito Brasil que tem a capacidade de ser pentacampeão. Se o Brasil pode, a gente pode.
É um disco muito moderno, Elza?
Muito, muito atual. Esse disco sou eu. Sou muito o agora, o ontem ficou e o amanhã virá ainda. Esse disco não é ousado, é muito abusado!
E além de ser abusado, há canções em que você dá voz às pessoas menos favorecidas, principalmente a raça negra...
Completamente. Quando ouvi o CD do Farofa Carioca eu comecei a pensar no porquê de ''a carne mais barata do mercado é a carne negra''. Realmente, é a carne mais difícil de ocupar uma cadeira na faculdade, é uma carne mais difícil de tudo. É uma carne muito difícil de ocupar um bom espaço. É uma carne superaproveitada apenas para o trabalho mais pesado.
O Wisnick é o diretor artístico. Até que ponto, no disco, estão as idéias dele e a suas?
Para cada faixa a gente tinha uma concepção. A gente teve um diálogo muito aberto porque todo esse disco nasceu da idéia do José Gonzaga, meu empresário. Ele foi o articulador. Então tudo foi feito junto. Há um ditado que diz ser preciso dois para nascer, de quatro para morrer e de todos para viver. E eu preciso de todos para viver, meu bem!
A canção ''Dura na Queda'' foi um presente do Chico para você. É uma canção autobiográfica?
(brincando) Eu não sei o que Chico pensou não, mas adorei.
Elza sempre foi polêmica, sempre deu o que falar, levou tombos e deu a volta a por cima. Que fórmula é essa de resistência?
Acho que é a coragem de ser o que se é. Você é o que escolhe: pode ser verdadeiro ou mentiroso, trabalhador ou vagabundo, bandido... Eu escolhi ser verdadeira. Escolhi ser o que sou.
DJs, beat box, rap. Você passeou bem por essa onda?
Muito bem. Mas não é de agora não. Morei muito anos nos Estados Unidos, sei o que acontece lá fora e aqui também. E o Brasil tem essa capacidade de criar. O Brasil é um Viagra.
Como assim?
Tá sempre de pé. É um povo que nunca cai, cara!
Na capa tem uma menina com uma pinta no canto da boca. Quem é quem? Você querendo ser ela ou ela querendo ser você?
Eu sou ela. Essa menina sempre vai estar dentro de mim eternamente: não sai, não tiro, não dou, não vendo. Se não tivesse essa criança viva dentro de mim, eu seria um cocô. Nada mais positivo que uma criança falando.
Você vai cantar no filme sobre o Mané Garrincha? Que música será?
Vou. Não sei a música porque ela será composta e não tenho idéia de quem vai compô-la
Não se incomoda de ter sua vida sempre associada ao Mané Garrincha?
Não! A gente viveu tanto tempo junto que não incomoda muito não. Ele foi ele e eu sou eu. Não tem nada que venha tirar alguma de minhas qualidades.

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