Elvis Presley num filme definitivo, em cartaz em Londrina
Documentário feito a partir de um show remasterizado, mostra o astro em Las Vegas num momento histórico
PUBLICAÇÃO
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026
Documentário feito a partir de um show remasterizado, mostra o astro em Las Vegas num momento histórico
Carlos Eduardo Lourenço Jorge/ Especial para a FOLHA
Um show remasterizado de Elvis em Las Vegas e suas imagens inéditas já seriam motivo suficiente para apreciar “EpiC - Elvis Presley in Concert”, o bom documentário em lançamento nesta quinta-feira (26) nos cinemas brasileiros, onde quer que o mito seja conhecido. E este território tem vastidão imensurável, goste você dele ou não. A preciosa edição o eleva à categoria de arte sob o pretexto de explorar e dissecar sua vida e a personalidade. E aqui a palavra "arte" não é usada levianamente. A essa altura, todos já estamos familiarizados com o estilo extravagante do diretor Baz Luhrmann, e ele não o abandonou para enquadrar uma apresentação ao vivo de Elvis.
Pelo contrário: após estabelecer seu estilo em uma abertura frenética que resume a vida do cantor até aquele momento, ele se dedica a misturar entrevistas, ensaios e imagens de shows com um design de som impecável que ajuda o espectador a conectar conceitos e a entender melhor sua personalidade. Longe de ser uma típica coletânea de "maiores sucessos", 'EPiC' é quase uma peça de museu (no melhor sentido) revelando pequenos compartimentos sob o disfarce da música: sua relação com a fama, sua suposta recusa em falar sobre política, seu amor pela filha... Sem precisar de uma única narração explicativa, o documentário mergulha de cabeça na descoberta do que estava por trás do mito.
FÊNIX EM LAS VEGAS
Após sua incursão nada desprezivel no gênero biográfico com “Elvis”(2022), Luhrmann optou por focar não no trágico fim da vida dele ou em sua ascensão inicial à fama, mas em seu retorno e renascimento como uma fênix em Las Vegas. Faz sentido, pois em nenhum outro momento essas duas figuras estiveram tão interligadas: os shows eram pura estética, maestria, controle, cor e extravagância, adjetivos que definem perfeitamente os filmes do diretor – “Moulin Rouge”, “O Grande Gatsby”, “Romeu + Julieta”,”Joana d’Arc”. A combinação dos dois, mais do que uma homenagem, é uma colaboração de décadas entre um cineasta frequentemente criticado por seu estilo e um cantor que buscava constantemente se reinventar. Um coquetel um tanto bizarro que, admitamos, pode causar um certo desconforto.
Essa provocação de Luhrmann não pode evitar o óbvio. Ou seja, por mais que ele se esforce para contextualizar e comentar, a magia de “EpiC” (que não é pouca) reside nas performances do astro, em seu senso de humor, em seus beijos com as fãs, em seu processo criativo e em seus solilóquios. Mesmo 70 anos depois, sua voz ainda cativa qualquer um que se sente para ouvi-la, sucesso após sucesso, de "In the Ghetto" a "Suspicious Minds". Aliás, por mais que se aprecie a ousadia do diretor e sua tentativa de evitar a mesmice, eu adoraria ver esses shows e ensaios sem interrupções, que acabam sendo um pouco mais irritantes do que deveriam.
Provavelmente não se deveria esperar que Luhrmann fizesse um documentário de concerto padrão, já que o diretor adicionou vários floreios estilísticos ostentosos ao longo do filme, como cortes abruptos entre várias performances completamente diferentes de Elvis da mesma música para criar algumas sequências musicais verdadeiramente emocionantes; os grandes exemplos de destaque são “Polk Salad Annie” e “Burning Love”.
A ENTREGA COMO ARTISTA
Você não precisa ser fã de Elvis para assistir a este filme e se surpreender com o quanto Presley se entregou como artista. Aqui ele deixa tudo no palco. Uma das imagens finais é dele saindo do palco e entrando em um elevador, encharcado de suor e completamente exausto. Sua dedicação à sua arte e ao entretenimento de seu público está totalmente em exibição ao longo de “EpiC”, seja dirigindo sua banda ou em suas trocas humorísticas e calorosas com os fãs na plateia; em um momento, ele está com tanta sede que simplesmente se abaixa e bebe o coquetel de alguém.
“EpiC” mostra Elvis em seu auge absoluto, vital e cheio de vida. É triste e impressionante perceber que ele se tornou uma caricatura inchada de si mesmo e morreu apenas alguns anos depois dessas filmagens. E como no doc o próprio Elvis conta sua história, ele só nos revela sua melhor versão. Obviamente, não ficamos sabendo de nenhum segredo profundo ou obscuro vindo do homem. O filme é uma experiência alucinante criada por um dos diretores mais singulares do século XXI, algo entre um concerto restaurado com requinte e uma montanha-russa à moda antiga de parque de diversões.
É impressionante como cenas filmadas na década de 1950, habilmente tratadas para restaurar cores, potência e, sobretudo, sons originais, podem ficar tão boas na tela como aqui: não teremos agora a oportunidade de vê-lo em IMAX, mas os fãs de Elvis certamente não têm desculpa para não se emocionarem como nunca antes com este documentário editado com sensibilidade, inteligência e personalidade, que rompe com tudo o que vimos até agora. Assim como o próprio Elvis, na verdade.