ELTON MEDEIROS em tempo de comemoração
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terça-feira, 26 de julho de 2005
Sérgio Augusto<br> Especial para Agência Estado 
Elton Medeiros fez aniversário no último dia 22, mas não deu a menor pelota pra isso. ''Detesto comemorar aniversário. Nunca gostei. Nem quando era garoto.'' Festa, porém, vai ter. E será hoje, na bela casa de show Estrela da Lapa, no boêmio bairro carioca que lhe deu o nome. Será uma tripla celebração: dos 75 anos de Elton, dos 40 do Zicartola (misto de restaurante e casa de samba montado por Cartola e sua mulher, Dona Zica) e do centenário de Ismael Silva.
Nenhuma na data certa. Se o aniversário do compositor na última sexta-feira justo no mesmo dia, aliás, em que cantavam ''happy birthday to you'' para dois outros grandes artistas do século passado, o pintor Edward Hopper e o escultor Alexander Calder o do Zicartola já passou faz tempo: cerca de dois anos. O centenário de Ismael (morto em 1978) é mesmo em 2005, só que daqui a dois meses. E daí? Daí, nada. Elton lava as mãos. E não é só Deus que é testemunha de que em 2003 ele tentou em vão homenagear os 40 anos do Zicartola e seus bambas (Cartola, Zé Kéti, Nelson Cavaquinho, Paulinho da Viola) com um show e um CD. Veio 2004, ele tentou de novo: nada. Agora juntou tudo: os 75 dele, os 42 do Zicartola, mais os 100 de Ismael 217 anos de inestimáveis serviços ao samba. Que se danem as datas redondas. ''Não existe data redonda'', ensina o aniversariante. ''A cabeça da gente é que é redonda.''
O CD, produzido por Luciana Rabello, está saindo pela Quelé, selo independente ligado à Acari Records e à Biscoito Fino. Seu título, ''Bem Que Mereci'', nada tem de cabotino. Elton não apenas faz jus a tudo que de bom a vida lhe deu nos primeiros 75 anos (o crítico Tárik de Souza acha que sambista é pouco para falar dele, a quem qualifica de enciclopédia, inclusive conceitual, da música brasileira), como o samba que afinal batizou o disco não é uma autocongratulação. É a confissão de um castigo, merecida punição amorosa por ter investido demais numa mulher sem nome e desnaturada, a mais recente ''Dalila'' do harém eltoniano se bem que inventada pelo seu fraternal parceiro Paulinho da Viola. Elton compôs a música e a despachou para Paulinho, com um bilhete: ''Se você for homem, põe letra nela.'' Paulinho enviou a letra, com outro bilhete: ''Viu como eu sou homem?''
Elton já fez música até com gente de outras paragens (os paulistas Paulo Vanzolini, Eduardo Gudin e Roberto Riberti, por exemplo) e outras gerações e estilos (Cacaso, Tom Zé, Carlinhos Vergueiro, Regina Werneck), mas Paulinho continua sendo a sua extensão mais completa. Conheceram-se no Zicartola, quando Paulinho desabrochava como autor e cantor, e até hoje só se separaram geograficamente quando o príncipe portelense mudou-se da zona sul (Botafogo) da cidade para a zona oeste (Barra da Tijuca). Quando vizinhos em Botafogo, compunham tudo sem fax, no tête-à-tête, no mano a mano, sem rígida divisão de tarefas, músicas & letras sem paternidade definida. Assim também era com Cartola e Zé Kéti.
A propósito, a música de ''Mascarada'' é inteirinha do Elton, a letra é dele e de Zé Kéti, em cima de uma história vivida pelo segundo. O ''lindo olhar'' que num baile de carnaval o poeta sonhava conquistar pertencia a uma foliã desconhecida e oculta por uma máscara. A música é superior à letra, o que já não pode ser dito de outra obra-prima de Elton, ''O Sol Nascerá''. Composta, na mesma época, com Cartola, nenhuma parte sobrepuja a outra, o equilíbrio é perfeito. Nasceu do desafio de um frequentador do Zicartola, crente que a dupla não conseguiria compor um samba de improviso, numa tarde de 1964, e não por conta de uma nota de US$ 100 que um americano teria oferecido a Cartola e Elton, conforme propalou o escritor João Antônio.
Carioca da zona sul e da zona norte, Elton fez a síntese de pelo menos duas sensibilidades, de dois estados de espírito, de dois tipos de quintal e terreiro: os da Glória, Lapa e adjacências (o que inclui o morro de Santa Teresa) e os de Brás de Pina e outros redutos suburbanos. A música veio praticamente com o leite materno. Dentro e fora de casa. A Glória, nos anos 30, era um festival interminável de saraus e serestas, que iam até o amanhecer. Seu pai, Luiz Antonio de Medeiros, mulherengo e emérito dançarino, era da Comissão de Frente do Flor do Abacate, um dos ranchos mais prestigiados da época.
''Eu cresci na fase florística dos ranchos: Flor do Abacate, Corbeille de Flores, Kananga do Japão, que sucedeu à fase aurífera, quando tudo era ouro ou dourado'', lembra Elton. Talvez a isso se deva a farta incidência de flores em suas composições e até em faixas de seu novo CD assinadas por outros autores. ''Bem Que Mereci'', ''Velha Poeira'' (parceria com Paulo César Pinheiro e Luiz Moura), ''Tesouro Guardado'' (com Cláudio Jorge), ''Demorou'' (com Roque Ferreira), ''Não Avance o Sinal'' (só de Ismael Silva) e ''Vestido Tubinho'' (samba-crônica só de Zé Kéti) em todas elas brota uma flor, ainda que metafórica.
Em quase todo o repertório do disco, só o amor, tema básico do samba, tem mais vez, e não apenas por conveniências rímicas, por rimar com flor e dor. Temos o amor que se foi: ''Antigas Lembranças'' (com Antonio Valente) e Partiu (relíquia de Cartola, antes só gravada num disco não comercial do compositor); o amor desiludido: ''Bem Que Mereci'', ''Demorou'', ''Lavo Minhas Mãos'' (inédita de Nelson Cavaquinho, exumada por Afonso Machado, parceiro de Elton em Azulzinho e produtor de seu CD anterior, ''Aurora de Paz'', lançado há quatro anos); o amor remido: ''Tá Bem, Mulher'' (com Carlinhos Vergueiro); o amor didático: ''Amanheceu''; o amor em flor: ''Velha Poeira''; o amor reprimido: ''Tesouro Guardado''; o amor curtido: ''Relaxa'' (com Carlinhos Vergueiro); o amor fiel: ''Não Avance o Sinal''.
Seu bisavô era africano legítimo, o avô foi escravo e o pai saiu de um quilombo para a casa de um ministro, em quais circunstâncias, Elton nunca apurou direito. Sua mãe era neta de português e índia. Elton é uma encarnação perfeita da miscigenação brasileira. Já fez o cálculo: ''Sou 50% negro, 25% português e 25% índio.'' Mas recomenda-se que não se toque no nome de Gilberto Freyre perto dele. ''Detesto esse cara'', corta o papo, sem precisar explicar as razões da ojeriza.
São muitas as histórias vividas por Elton. Como o primeiro samba que compôs, com apenas oito anos de idade, incentivado pelo irmão Aquiles, incansável organizador de blocos em Brás de Pina, onde os Medeiros se estabeleceram por volta de 1935. Como as aulas de música que teve com Pixinguinha na Escola Técnica João Alfredo, em Vila Isabel, em cuja banda tocava sax horn barítono. Como os blocos e escolas de samba que ajudou a fundar, como a Tupi de Brás de Pina, a Unidos de Lucas (fusão da Aprendizes de Lucas e Unidos da Capela) e a dissidente Quilombo, esta nos anos 70, com o portelense Paulinho da Viola, Martinho da Vila, Candeia e Monarco. Como sua estréia como crooner e instrumentista (o trombone era emprestado) na mesma gafieira, Fogão, no Engenho Novo, em que Jamelão iniciou sua carreira de cantor. Como seu début radiofônico no programa ''Na Batida do Samba'', produzido e apresentado na Mayrink Veiga pelo humorista Sérgio Pôrto, responsável pela ''ressurreição'' de Cartola, que durante boa parte dos anos 50 andou sumido, ganhando a vida como lavador de carros.
E como tem mais histórias. Como a sua solene entronização como padrinho da ala dos compositores da Portela, em 1956. Como a sua participação na curta mas gloriosa trajetória do Zicartola, centro convergente da velha guarda do samba com a garotada da bossa nova. Como a sua contribuição para o histórico show ''Rosa de Ouro'', ao lado de Hermínio Bello de Carvalho, Clementina de Jesus, Aracy Cortes, Nelson Sargento, Paulinho da Viola, Nescarzinho do Salgueiro e Jair do Cavaquinho. Como as suas viagens à África e à Europa, onde ensinou samba até a sueco. ''Conheci um garoto sueco que aprendeu a tocar bem tamborim em apenas meia hora'', revela, abrindo caminho para mais um capítulo de uma conversa que não parece nem merece ter fim.
'Eu vi muita coisa. Está na hora de ir embora'', acrescenta. Ir embora? ''É, ir embora, partir desta. Já vivi o bastante. Sou um cidadão do século 20. Não tenho nada a ver com o século 21.'' Demore mais um pouco, Elton. Uns 20 anos, pelo menos. Quem sabe, o século 21 não fica mais ao seu feitio e, finda a tempestade que ora nos castiga, você possa continuar levando a vida a sorrir.


