Elogiado disco de estréia do cubano Ibrahim Ferrer chega às lojas na quarta
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quinta-feira, 14 de outubro de 1999
Por Jotabê Medeiros 
São Paulo, 15 (AE) - O cubano Ibrahim Ferrer, o príncipe que engraxava sapatos, é a bola da vez no mundo da música. Seu disco de estréia, aos 72 anos, "Ibrahim Ferrer" (WEA) é uma dessas coisas magníficas que não podem faltar na estante de ninguém que aprecie a boa música. Os europeus já estão deslumbrados. Em Paris, a loja da Virgin no subsolo do Museu do Louvre distribuía, em agosto, uma minibiografia desse cantor, violonista, músico completo e intérprete refinado.
Mas a vida nem sempre foi generosa para com o cubano de Santiago. Quando perdeu a mãe, aos 13 anos, Ferrer passou a engraxar sapatos para sobreviver. Quando Cuba perdeu o rumo, nos anos 60, ele voltou a engraxar sapatos na rua. Ex-crooner da orquestra de Beny Moré, em 1958, talento reconhecido no passado, Ibrahim Ferrer trabalhava duro na rua para ganhar US$ 15 mensais. "Para mim, a coisa mais importante era não estar parado, além do que engraxar sapatos era tudo o que eu sabia fazer", disse Ferrer, em entrevista por telefone, na quarta-feira à noite, de Cuba.
"Não há desonra no trabalho", afirmou o simpático músico, que também foi rápido em se autoconvidar para voltar ao Brasil. Ele esteve aqui no último Heineken Concerts. "Eu fiquei no Rio e em São Paulo durante três dias e não deu para ver tudo o que eu queria", disse. "Eu quero ver o carnaval e vou assim que vocês me chamarem", afirmou. O velho Ibrahim não perde por esperar. A gravadora WEA informou que tem planos de trazer os veteranos cubanos para subir num trio elétrico em Salvador, no carnaval do próximo ano.
A vida começou a mudar para Ibrahim Ferrer em 1996, quando o guitarrista americano Ry Cooder foi a Cuba para reunir uma geração de notáveis músicos cubanos da primeira metade do século em um disco também memorável: "Buena Vista Social Club". O disco também originou um premiado documentário, dirigido pelo alemão Wim Wenders (de Paris, Texas). Os notáveis eram, além de Ibrahim Ferrer, os fantásticos Rúben Gonzalez, Compay Segundo, Elíadez Ochoa e Omara Portuondo, entre outros. A co-produção foi do cubano Juan de Marcos Gonzalez.
"Buena Vista Social Club" ganhou um Grammy e "revelou" os cubanos mundo afora. Ibrahim é um dos destaques. Mas, como nunca tinha gravado um disco em toda a sua carreira, Ry Cooder se ofereceu para produzir sua estréia-solo. "Ibrahim Ferrer" chega às lojas brasileiras na quarta-feira, de acordo com a gravadora. "Agora só falta me convidarem para voltar ao Brasil", disse o músico. "Eu adoro viajar, adoro conhecer e quero que me conheçam".
Conhecê-lo não é fácil. Não é um currículo pequeno. Ele nasceu em Santiago de Cuba, em 1927. Começou a cantar profissionalmente em 1941 com grupos locais, engraxando sapatos de dia e cantando de noite. Nos anos 50, ele se estabeleceu como o cantor do grupo de Pacho Alonso. Também passou a colaborar com a lendária Orquestra de Chepin e com a de Benny Moré. Foi com Benny, "o maior de todos os mestres", que ele se mudou para Havana, a capital cubana, em 1959.
Os anos 70 foram encontrar Ibrahim Ferrer tocando no famoso grupo Los Bocucos (do mesmo Pacho Alonso), que celebrizou uma espécie de percussão com o barulho de grãos de café. Atualmente, ele vive em Havana Velha em uma quitinete. Foi casado duas vezes - a primeira mulher morreu e casou-se de novo. Teve cinco filhos naturais e dois adotivos. Ibrahim Ferrer elogiou muito Ry Cooder. "Para mim, ele é um cubano", afirmou. "Conhece a música cubana tanto quanto eu, mergulhou bastante fundo nela".
O disco de Ferrer, produzido por Cooder, é uma pintura. Traz preciosidades como o lamento de escravos "Bruca Manigua", de Arsenio Rodriguez (maestro cego nascido em Guira de Macurijes
em 1913, e morto na Califórnia, em 1970). "Herido de Sombras" foi composta nos anos 50 por Pero Vega. "Melodía del Río" foi composta por Rubén González (nascido em 1919, um dos veteranos da trupe) para reproduzir um standard da música americana dos anos 30. "Silencio" é do porto-riquenho Rafael Hernández, composta nos anos 20. É um CD chique até a medula.
Rúben Gonzalez, Compay Segundo, Generoso Jimenez e Ibrahim Ferrer representam uma geração que dificilmente será igualada na música cubana - e jamais será superada. "Entre os jovens músicos cubanos da atualidade, não serão muitos os que chegarão a isso", afirmou Ferrer. "A invasão da salsa e de outros ritmos fez com os jovens se esquecessem cedo demais o que um dia foi a música cubana", lembrou. "Poucos chegarão a ela e alguns não chegarão nunca, porque se esqueceram da música: se esqueceram da sua Cuba".


