O talento de James Ellroy, evidenciado no livro ‘‘Los Angeles, Cidade Proibida’’, se reafirma e potencializa em sua mais recente obra, ‘‘Tablóide Americano’’. Tudo o que se viu no primeiro romance, a força, a densidade, o modo cru e firme de narrar, a construção de personagens sólidos, se revela neste novo livro que abre um leque maior: agora não é só a corrupção da polícia de Los Angeles, mas a sujeira toda envolvida nos interesses nacionais e mundiais de uma potência que é mostrada cruamente pelo autor.
‘‘Tablóide Americano’’ retrata um dos períodos mais dramáticos da história recente norte-americana, desde 1958 até 1962. E além dos personagens de ficção, envolvendo ai agentes do FBI e criminosos envolvidos com a máfia, o autor coloca também pessoas reais, com papel preponderante na vida daquele país, entre os quais o discutido John Edgar Hoover, o terrível criador e diretor do FBI por décadas, John Kennedy, o senador que subia como um jato para tentar a presidência, seu irmão Robert, inimigo declarado do crime organizado, alguns dos mafiosos mais famosos da época, formando um mosaico fabuloso, numa narrativa candente, seca, mas ainda assim rica, que vai revelando não só uma história mas toda uma sociedade a caminho do caos.
Para os norte-americanos, talvez, um retrato não muito bonito de seu próprio país. E eles, sabe-se, não gostam muito disto, preferem se ver como os ‘mocinhos’ sempre limpos, bonitos e charmosos que, em seus cavalos brancos e igualmente maravilhosos, distribuem a justiça para um mundo conturbado. Só que a realidade não é bem assim. E James Ellroy mostra uma realidade chocante, uma conturbada visão sobre interesses conflitantes, com o choque natural que acaba levando a um inevitável fim.
É a história de uma fase complexa da vida norte-americana mostrada com muita força e verossimilhança. Como a ficção e a realidade se misturam, os personagens reais parecem por vezes fictícios, os inventados dão a impressão de pessoas com vida, a lei e o crime se tornam quase uma coisa só e, no fim, fica a sensação de que estamos todos envolvidos em uma trama sórdida em que o cidadão comum é, apenas, um marionete, conduzido por interesses quase sempre inconfessáveis.
Um trabalho de mestre, retratando nosso tempo, com dureza mas, ainda assim, muita sensibilidade.
O livro, com 704 páginas, é daqueles que prendem e que, no final, deixa a vontade de mais. Pelo que se anuncia, este é parte de uma trilogia. Ainda vamos ter mais James Ellroy, contando a história de nosso tempo, o que cria uma expectativa positiva para os leitores.

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