Elke, eterna maravilha
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terça-feira, 16 de agosto de 2016
Célia Musilli<br>Reportagem Local 

A alegria perdeu Elke Maravilha na madrugada de ontem, aos 71 anos. A inversão cabe perfeitamente a uma pessoa conhecida por seu espírito irreverente, identificada pelo modo exótico de vestir-se e comportar-se, além de esbanjar alegria. Se chamava a atenção pelo comportamento, sua história de vida é um atrativo a mais para quem quer conhecer as influências que deram origem à uma personalidade tão sensível quanto anárquica.
Nascida em São Petersburgo, na Rússia, em 1945, ainda estava na barriga da mãe quando seu pai foi preso por razões políticas ao desafiar o regime comunista. Segundo relato da própria Elke ao entrevistador Antonio Abujamra no programa "Provocações" exibido pela TV Cultura em 2003 o pai foi lutar pela Finlândia contra os russos naquela que ficou conhecida como Guerra de Inverno ou Guerra das Neves.
Depois do episódio, o senhor George Grunnupp, pai de Elke, perdeu a cidadania russa por ser considerado um traidor da pátria e emigrou para o Brasil, indo morar com a família numa pequena cidade de Minas Gerais chamada Itabira do Mato de Dentro, onde também nasceu o poeta Carlos Drummond de Andrade.
Da infância, Elke guardava grandes recordações, sobretudo do pai, a quem considerava corajoso. Foi ele quem lhe ensinou a enfrentar os medos reais ou imaginários. A Abujamra ela contou que no meio do mato as pessoas tinham medo principalmente da tempestade, do escuro e das cobras com as quais ela sempre se deu bem, segundo afirmou. Nesta época também conviveu com uma comunidade negra, formada por trabalhadores da zona rural, em relação aos quais notava que havia muito preconceito, o que acabou determinando sua grande simpatia por eles. "Foi em Minas que eu virei negona", costumava dizer.
Da mesma forma, apoiava as causas LGBT e chegou ser considerada um ícone mundial por essa simpatia. Onde houvesse alegria e uma causa libertária lá estava Elke, que foi ainda considerada um expoente da arte pornô e madrinha da Associação das Prostitutas do Rio de Janeiro.
No programa de Abujamra o que se viu foi o desafio de dois provocadores. Na ocasião, perguntada se costumava chorar, Elke respondeu que não porque não tinha personalidade dramática, mas se colocava como trágica, explicando que "os trágicos não choram, pranteiam."
Também afirmou que não se considerava exatamente uma atriz porque não se sentia confortável no palco e disse que ouviu do diretor Walter Avancini que ela "levava jeito mas não tinha vocação" para ser atriz. Com o que concordava, afirmando que talvez só se desse bem numa tragédia grega.
Culta, citava frequentemente conceitos filosóficos como os de ética e estética que desenvolveu para Abujamra quando perguntada sobre o poder da beleza e afirmou que o maior risco que correu na vida foi "se casar com gente rica", por sinal, ela se casou oito vezes. Era também poliglota, falava oito línguas, incluindo o latim e, no Rio, foi uma das primeiras professoras da Aliança Francesa e também do Instituto Cultural Brasil- EUA.
Um dos episódios marcantes de sua vida foi ter perdido a cidadania brasileira ela manteve a cidadania alemã , nacionalidade de sua mãe - depois de arrancar de um aeroporto um cartaz com a foto de Stuart Angel Jones, filho da estilista Zuzu Angel, que era procurado pelo regime militar como terrorista. Depois do ato, Elke ficou presa durante seis dias, mas nunca perdeu sua verve contestadora e não suportava qualquer tipo de arbitrariedade. Itamar Assumpção dedicou a ela a música "Apátrida de Itabira".
TRAJETÓRIA
Modelo na juventude, Elke começou a desfilar aos 24 anos para Guilherme Guimarães, impondo aos poucos um estilo próprio, a ponto dos costureiros começarem a fazer roupas especialmente para ela. Nas passarelas sabia fazer o gênero chique, mas se impôs pelo exotismo. Com isso, da moda para a carreira artística foi um pulo. Em 1972 começou a participar da Buzina do Chacrinha, apresentada ao Velho Guerreiro por Haroldo Costa, então produtor do programa. Depois participou como jurada do Show de Calouros de Sílvio Santos e fez o talk show "Elke", no SBT. Atuou em filmes como "Barão Otelo no Barato dos Bilhões" (1971) - com Grande Otelo e dirigido por Miguel Borges - "Quando o Carnaval Chegar" (1972) e "Xica da Silva" (1976), de Cacá Diegues, e "Pixote" (1981), de Hector Babenco, entre outros. O último papel foi em "Carrossel 2- O Sumiço de Maria Joaquina."
No teatro fez peças infantis e estreou com Zé Celso Martinez Corrêa na leitura dramática "O Homem e o Cavalo" (1985), além de ter integrado o elenco de "Carlota Joaquina" (2001), no papel de Dona Maria, a Louca. Seu último espetáculo foi "Elke canta e conta", que estreou em 2015.
De personalidade marcante, era imensamente popular e comparada a ícones como Carmen Miranda e Arthur Bispo do Rosário. A psiquiatra Nise da Silveira reconhecida por seu trabalho de arte terapia com pacientes de manicômios considerava Elke Maravilha uma sacerdotisa de Dionísio, capaz de iluminar caminhos e espalhar alegria.
A sacerdotisa partiu ontem recebendo dos amigos e colegas de trabalho muitas homenagens na imprensa e nas redes sociais. O corpo de Elke está sendo velado no Teatro Carlos Gomes, no Rio, e será enterrado na manhã desta quarta-feira no Cemitério São João batista, em Botafogo.
Elke Maravilha espalhava a fantasia por onde passava e decerto agora lhe cairá bem um figurino de anjo. Dá até para a imaginar sua alegria ao experimentar pela primeira vez um par de asas de verdade, acessório indispensável para seu voo libertário.


