Elizabeth Gilbert lança novo livro
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terça-feira, 12 de novembro de 2013
Lucia Guimarães<br>Agência Estado 
Nova York - O que faz uma autora depois que suas memórias vendem mais de 10 milhões de cópias em 30 países (500 mil no Brasil) e ela é vivida no cinema por Julia Roberts? "Coitada", era um comentário que Elizabeth Gilbert ouvia depois do sucesso de "Comer, Rezar, Amar", dirigido por Ryan Murphy. Ela diz que não adere ao canibalismo da superação obrigatória. Não se importa de saber que será lembrada por seu best-seller de 2006, embora considere "A Assinatura de Todas as Coisas", lançado no País pela Alfaguara, seu melhor trabalho.
Em sua casa numa pequena cidade de New Jersey, a autora falou ao jornal O Estado de S.Paulo sobre o romance - que percorre o século 19 na visão da protagonista Alma Whitaker, uma pioneira da Botânica consumida pela curiosidade sobre a natureza e o desejo - e da vontade de mudar a representação das personagens femininas daquele período.
Elizabeth Gilbert começou como ficcionista em "Peregrinos" (1997), obra bem-recebida pela crítica, mas foi com o best-seller "Comer, Rezar, Amar" que se tornou mais conhecida do público. Em 2010, foi representada por Julia Roberts na adaptação cinematográfica da obra.
Na história, Gilbert partia numa aventura de exploração espiritual que termina em Bali com um amor brasileiro, José Nunes. Atualmente, o casal vive numa pequena cidade de New Jersey, a 100 quilômetros de Manhattan. Lá, a escritora expôs as motivações para criar sua personagem e de sua paixão pela literatura do século 19.
A protagonista Alma Whitaker espelha de alguma forma sua aventura de busca pessoal no livro "Comer, Rezar, Amar"?
Não acho que conseguiria inventar uma protagonista que não tivesse fome de algo, aspirações. Quis colocar Alma em contraponto com o movimento espiritual de transcendentalismo no século 19. Eram ideias meio proto-hippies daquele tempo, que acabei adotando a certa altura. Emerson, Thoreau, essa turma falava de altos conceitos de busca espiritual, olhavam para o cristianismo de outra forma. Experimentaram, por exemplo, com hipnose. Havia esse clima meio new age no período que era diametralmente oposto ao que a empírica Alma defende. Por isso, criei um personagem para entrar em colisão com ela.
Sem revelar o final, qual é o significado de sua conclusão?
No centro da vida de Alma há dois mistérios gêmeos. Um são os mecanismos da natureza e o outro os de sua vida pessoal. Os dois mistérios começam a se entrelaçar. À medida que esclarece um, ela se debruça sobre o outro. Alma quer entender a natureza, mas quer também entender o que sente. As duas curiosidades a levam aos confins da Terra e ela consegue voltar com respostas. É uma qualidade dela que me toca.
Por que quis manter a protagonista desengajada politicamente, apesar de viver um período de tanta transformação?
O século 19 foi realmente de grandes transformações. Tivemos a Revolução Industrial, o fim da escravidão, o começo da ideia dos direitos humanos, a separação entre ciência e religião, a emergência dos movimentos de mulheres e tudo isso acontece em torno de Alma. Um aspecto que me atrai nela é que ela é uma cientista, e eles geralmente não dão tanta atenção ao mundo em volta por estarem mergulhados no que estudam. Ela passa boa parte do tempo no microscópio. Sua irmã se envolve no movimento abolicionista e ela não entende o motivo. Não percebe nada do movimento pelo direito ao voto feminino. Na prática, age como uma feminista, mas não se junta a grupos porque não é política. O que encontra, de fato, é o debate sobre ciência e religião e acaba tendo seu papel nele, mas não porque planejasse. Isto faz sentido para mim porque ela estaria acompanhando o debate sobre a Teoria da Evolução.
Alma Whitaker é excepcionalmente ambiciosa para uma heroína do século 19.
Desde que a Alma começou a tomar forma na minha cabeça, queria que ela tivesse uma vida rica. Mas sabia que ela não poderia conseguir tudo o que queria. Ela nunca poderia ser satisfeita no mundo em que vivia. Eu não queria escrever um livro que partisse o coração. Queria uma história de redenção. Mas nem tudo dá certo para ela. Há uma outra coisa que queria com este livro, porque sou uma leitora voraz de literatura do século 19: de maneira geral, a personagem feminina só tem dois tipos de final. Ou acaba no bom casamento como em "Orgulho e Preconceito", ou sob as rodas de um trem, geralmente por causa de um erro sensual - "Daisy Miller" ou "Anna Karenina". Um erro basta. E sinto que a realidade da vida de mulheres é mais sutil. Nas nossas vidas, a resposta não é ter encontrado o homem certo ou se arruinar. Há muito meio-termo. E essa realidade não está nas representações em romances. A maioria de nós acaba mais ou menos decepcionada, mas tendo uma vida interessante. A mulher pode não ter satisfação plena e ainda viver uma vida digna e fascinante. E chegar à conclusão de que valeu a pena.


