''Elizabeth'' estréia no Brasil
Ela é considerada a grande adversária de Fernanda Montenegro na disputa do Oscar. Cate Blanchett já ganhou o Globo de Ouro de melhor atriz de drama, vencendo Fernanda. Ganhou pelo filme Elizabeth, de Shekhar Kapur, que estréia hoje nos cinemas de todo o Brasil. Cate pode ser a preferida - ela ou Gwyneth Paltrow, que também ganhou o Globo de Ouro (de atriz de comédia ou musical) por Shakespeare Apaixonado, mas Fernanda é mais atriz. É o que o público poderá confirmar assistindo a Elizabeth.
A personagem é daquelas maiores que a vida, que Hollywood volta e meia gosta de reverenciar. A rainha Elizabeth I, que entrou para a história como a Rainha Virgem, foi interpretada por Bette Davis, Glenda Jackson e Jean Simmons. Bette imortalizou-a em dois filmes - Meu Reino por um Amor, de Michael Curtiz, e A Rainha Tirana, de Henry Koster - a imagem tradicional de Elizabeth: uma mulher forte e autoritária. É como ela também aparece em Shakespeare Apaixonado, criada de forma magistral por Judi Dench, que concorre ao Oscar de coadjuvante. O filme de Kapur mostra os verdes anos dessa mulher extraordinária.
Assiste-se, em Elizabeth, ao nascimento do mito. Como toda cinebiografia hollywoodiana, é edulcorada e falsificada. Faz lembrar o velho O Leão no Inverno, de Anthony Harvey, que, nos anos 60, deu o Oscar de melhor atriz para Katharine Hepburn (como Leonor de Aquitânia). Ambos tratam da luta pelo poder na corte inglesa. Mas o espectador não deve esperar nada comparável ao extraordinário A Tomada do Poder por Luís XIV, de Roberto Rossellini. Talvez por mostrar a personagem de Elizabeth como uma jovem dividida entre o amor e o trono, o filme de Kapur desenvolve-se com lances dignos de um folhetim das 8.
Tudo bem: a corte inglesa era mesmo uma central de mexericos, em que todo mundo tentava influenciar a jovem rainha. Mas Elizabeth nunca foi a tonta focalizada pelo roteiro. Aos 3 anos declarada bastarda, aos 8 escapou do primeiro atentado. A partir de então, foi moldando sua personalidade de ferro. Kapur cai nas ciladas que ele mesmo arma - tenta pintar Elizabeth como o protótipo (ou a precursora) da mulher moderna e independente, mas logo em seguida desmonta a personagem com a revelação de que seu amado é casado. Que mulher moderna recuará perante argumento tão insignificante?
Elizabeth é fundamentalmente a história de um romance -o da rainha com Robert Dudley, interpretado pela nova sensação masculina das telas, Joseph Fiennes, o irmão de Ralph Fiennes. Por causa da traição dele, Elizabeth casa-se com a Inglaterra e, numa cena particularmente falsa, corta a vasta cabeleira e esculpe, por meio da pesada maquiagem, a máscara da persona pública. O cinema já se encarregou de mostrar que Elizabeth perdeu os cabelos por causa de um problema de saúde.
É um filme mediano e a própria academia sabe disto. Não por acaso, Elizabeth concorre na categoria de melhor filme, mas não na de melhor diretor. Mau como dramaturgia, nos seus excessos folhetinescos e sentimentais, o filme vem embalado no luxo da produção, embora seja um mistério porque o diretor, dispondo de tantos castelos, tenha resolvido filmar quase que só em catedrais - talvez para realçar o aspecto religioso da luta que a rainha encarou, e venceu, na Inglaterra do seu tempo.
Protestante num país de católicos, foi acusada de traição e teve a morte decretada pelo próprio papa. Temendo que ela restaurasse o protestantismo, sua santidade prometeu o reino dos céus a quem a matasse. É um dos detalhes da intriga palaciana que o diretor Kapur tece, não se esquecendo de acrescentar tempero à trama na cena em que revela a natureza homossexual de um dos pretendentes ao amor da rainha.
Embaralhando dados e fatos, o roteiro insinua que Elizabeth afastou seu conselheiro, lorde Burghley, interpretado por Richard Attenborough, logo no começo do seu reinado. Nada disto - ele permaneceu seu fiel conselheiro por mais de 30 anos, só então sendo dispensado. Detalhes menores, deve ter pensado o diretor. Afinal, ao criar sua ficção ele se interessou tão pouco pela realidade que omitiu o fato que invalida toda a ficção romântica que arma - Elizabeth pode não ter se casado com Dudley, mas ele frequentou sua cama até a morte.
Não se exige de uma ficção histórica que seja um documentário, mas um mínimo de consistência e até coerência pode (e deve) ser cobrado. É o que falta em Elizabeth. Ficção por ficção, a de Shakespeare Apaixonado é melhor, além de muitíssimo mais sofisticada. Nela reluz a Elizabeth madura de Judi Dench, uma atriz poderosa. No outro filme, sim, o espectador encontra a verdadeira Elizabeth que passa ao largo dessa versão tão açucarada quanto, no fundo, boba.
O filme estréia hoje em circuito nacional, incluindo Curitiba.France PresseCate Blanchett interpreta Elizabeth I nas telas: tratamento folhetinesco prejudica o filmeLuiz Carlos Merten
Agência Estado





