Elisabeat
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 04 de maio de 2010
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
Quando um autor decide que é hora de publicar um livro ? O que o leva a retirar seus escritos da gaveta ? A blogueira londrinense Elisabete Mari Ghisleni não sabe a resposta, mas diz que a ideia de ter seus poemas expostos nas prateleiras amadureceu nos últimos meses, estimulada pelos amigos.
Planeja lançá-lo como produção independente, bancando os custos com dinheiro do próprio do bolso. Recusa-se a tentar patrocínio através de leis de incentivo cultural. ''Os projetos são complicados. Tem que correr atrás e ficar esperando para ver se aprova'', diz.
O formato do livro já foi esboçado. Será dividido em duas partes, uma com poemas e outra com fotografias. O primeiro bloco reúne versos produzidos ao longo de duas décadas, entre haikais e poemas de maior fôlego, muitos embutindo imagens lúdicas com referências à água.
Os registros fotográficos, por sua vez, apresentam uma temática conceitual documentando palavras inscritas em eletrodomésticos. ''Percebi que há uma poética, por exemplo, na palavra 'amaciante' impressa na máquina de lavar. Ao fotográfa-la, tento operar um deslocamento de contexto transformando um utensílio num inutensílio. Todas as fotos seguem essa transvaloração de valores'', explica.
Bete não se leva muito a sério na figura de poeta. ''A poesia surge espontaneamente, aí escrevo, não tenho ambições de ter uma grande produção. Sou preguiçosa, gosto de produzir no meu tempo. Não vejo a atividade poética como uma obrigação ou uma profissão, tampouco como um hobby. É um canal de expressão para meus devaneios e faz parte das coisas que não precisam de justificativa para existir'', assinala.
A poesia que a seduz é aquela que ''incorpora a gíria, a linguagem do dia-a-dia'', diz. Os leitores podem acessar seus textos no blog www.elisabetemg.blogspot.com.
Paranaense de Paranavaí, ela está radicada há mais de duas décadas em Londrina, com um intervalo de alguns anos em que largou a universidade para morar na área rural cuidando da fazenda dos pais.
Começou a estudar Arquitetura, parou e voltou às salas de aula para se formar em História. De espírito cigano, era chamada pelos amigos de ''Elisabeat'', numa alusão aos escritores norte-americanos da geração beat, que colocavam o pé na estrada atrás de aventuras. No período universitário, no final dos anos 80, ela experimentou um intenso ambiente literário graças a amigos poetas e outros que também tentavam enveredar pelo mundo das letras.
Lia tudo que caía às mãos: Paulo Leminski, Walt Withman, Lawrence Ferlinghetti, Maiakowski, Augusto dos Anjos. Na época morava numa república de estudantes onde um dos moradores gostava de imitar Jack Kerouac, autor de ''On The Road'', clássico da literatura beat. ''Ele colocava um rolo de papel enorme na máquina de escrever e escrevia tudo o que vinha à cabeça'', lembra.
''Aquilo foi um estímulo pra mim. Também comecei a escrever deixando o pensamento fluir solto. Vi que havia coisas que precisavam ser ditas e essa experiência passou a fazer parte do meu cotidiano. Anos depois, descobri que havia impressões e fragmentos interessantes ali. Foi aí que pensei em reunir tudo num livro'', conta.
Em 1993, Bete teve poemas publicados na coletânea ''Poetas Contemporâneos do Paraná'', que trazia participantes do Concurso Helena Kolody. Ultimamente, passou a frequentar os saraus literários promovidos pela Vila Cultural Cemitério de Automóveis, raro ponto de encontro de poetas locais. Segundo ela, é o único espaço de Londrina onde os autores se reúnem para se divertir e mostrar o que estão produzindo.
''Londrina é um celeiro de poetas, mas não sabe muito bem como absorvê-los. Na música acontece o mesmo. Mas todo mundo que sai daqui e se destaca nos grandes centros, diz que Londrina é uma escola'', assinala. Paralelamente à escrita e à fotografia, Bete também pinta quadros em óleo sobre tela, produção que brevemente poderá ser apreciada pelo público em sua primeira exposição individual.
MÁGOA DE MUSA
mágoa de musa
musa
o poeta
tira tua blusa
e flutua
em tuas luas
depois
vagueia.
quando
te captura
doura lá fora
e te devora
nesse êxtase
assim
ao menor sinal
ao ver o seu canal
o poeta
torna de suas dunas.
em outras escunas
musa
doas a rima
fresca
úmida
brise soleil
prana.
ele
depois
se
sacia
dessa claraboia
sendo.
enquanto você espera
ele troça
das flores
de tais esferas
esmagada
a esmo
em clics de desprezo.
o poeta
tem seus truques
vitros.
musa
mesmo
que diga
que ama
não se engane
nesse avesso
versos de poeta
tem preço.


