Tem disco novo de Elis Regina na praça. Chama-se ‘‘Elis Vive’’ - o nome retirado das pichações que a paixão popular imprimiu nos muros das cidades brasileiras, semanas depois da morte da cantora, como se assim fosse possível contrariar o destino. Homenagem feita à base de spray, naquele início de 1982. Dezesseis anos e sete meses depois a WEA lança o que vem a ser uma gravação inédita - e ao vivo - de um show apresentado no dia 15 de outubro de 1979, no Anhembi, em São Paulo.
Das 18 faixas do disco, a única novidade é ‘‘Lembre-se’’, de Tunai e Sérgio Natureza. As demais são músicas que estão espalhadas por outros discos, a começar por ‘‘Eu hein, Rosa’’, de João Nogueira e Paulo Cesar Pinheiro, que abriu a sessão. Essa e a seguinte, ‘‘Cai Dentro’’, de Baden Powell e Paulo Cesar Pinheiro, estavam no LP ‘‘Essa Mulher’’, lançado nesse mesmo ano. No álbum a cantora aparece a la Billie Holliday, com orquídea nos cabelos.
Em ‘‘Elis Vive’’ percebe-se, já no início, que a artista estava num daqueles ótimos dias. Cantando ou mesmo apresentando os músicos de sua banda, ela esbanja a leveza de quem está de bem com a vida. O show foi uma experiência empreendida por Elis e pelo pianista e arranjador César Camargo Mariano, seu marido na época. Os dois partiam nessa noite em busca de novas sonoridades.
Era um teste - as músicas ganharam outros molhos e a banda que tinha em sua formação músicos tradicionais da cantora, como o guitarrista Crispim Del Cistia e o tecladista César Camargo Mariano, foram agregados representantes pop: o baterista Moreno, do grupo O Terço, e o baixista Nenê, de Os Incríveis.
O disco começa funkeado. Os sambas ‘‘Eu hein, Rosa’’ e ‘‘Cai Dentro’’ vestem novas roupagens na interpretação segura de Elis. O tom pop é o que impera, mas não impede que o show caminhe para outros climas quando, por exemplo, traz à cena ‘‘Conversando no Bar’’, de Milton Nascimento e Fernando Brant. Ela explode em ‘‘Corsário’’, de João Bosco/Aldir Blanc, deixa o vozeirão sair pleno, como acontece na maioria das faixas.
‘‘Menino’’, da dupla Milton Nascimento/Ronaldo Bastos, faz um corte visceral na festa, trocando a leveza pela opressão. ‘‘Quem cala sobre teu corpo/ consente na tua morte/ talhada a ferro e fogo’’, dizem seus versos iniciais. O último, porém - ‘‘quem grita vive contigo’’ - é acompanhado por um berro quase selvagem que vara todos os temores. Mais uma vez Elis fincando no palco sua persistência e fé.
A esse cenário passageiro emenda-se o clássico ‘‘O Bêbado e a Equilibrista’’ (Bosco/Blanc), com participação especial de Caçulinha, tocando sanfona. Ao anunciá-lo a cantora aproveita para destilar ironia ao lembrar-se dos tempos da ‘‘falecida’’ TV Record, quando ali se apresentavam no ‘‘Fino da Bossa’’: ela, Caçulinha, Chacal, Camargo Mariano.
‘‘Maria, Maria’’ fecha o espetáculo, com a poesia vigorosa de Brant sobre a gente ‘‘que ri quando deve chorar/ e não vive, apenas aguenta’’. Em cena, explorando novos caminhos e sons, dando continuidade ao costume de enfrentar desafios e abraçar o novo, Elis era a própria Maria da canção: ‘‘quem traz no corpo essa marca/ possui a estranha mania de ter fé na vida’’.

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