Elis vive em novo CD
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 29 de setembro de 1998
Zeca Corrêa Leite 
Tem disco novo de Elis Regina na praça. Chama-se Elis Vive - o nome retirado das pichações que a paixão popular imprimiu nos muros das cidades brasileiras, semanas depois da morte da cantora, como se assim fosse possível contrariar o destino. Homenagem feita à base de spray, naquele início de 1982. Dezesseis anos e sete meses depois a WEA lança o que vem a ser uma gravação inédita - e ao vivo - de um show apresentado no dia 15 de outubro de 1979, no Anhembi, em São Paulo.
Das 18 faixas do disco, a única novidade é Lembre-se, de Tunai e Sérgio Natureza. As demais são músicas que estão espalhadas por outros discos, a começar por Eu hein, Rosa, de João Nogueira e Paulo Cesar Pinheiro, que abriu a sessão. Essa e a seguinte, Cai Dentro, de Baden Powell e Paulo Cesar Pinheiro, estavam no LP Essa Mulher, lançado nesse mesmo ano. No álbum a cantora aparece a la Billie Holliday, com orquídea nos cabelos.
Em Elis Vive percebe-se, já no início, que a artista estava num daqueles ótimos dias. Cantando ou mesmo apresentando os músicos de sua banda, ela esbanja a leveza de quem está de bem com a vida. O show foi uma experiência empreendida por Elis e pelo pianista e arranjador César Camargo Mariano, seu marido na época. Os dois partiam nessa noite em busca de novas sonoridades.
Era um teste - as músicas ganharam outros molhos e a banda que tinha em sua formação músicos tradicionais da cantora, como o guitarrista Crispim Del Cistia e o tecladista César Camargo Mariano, foram agregados representantes pop: o baterista Moreno, do grupo O Terço, e o baixista Nenê, de Os Incríveis.
O disco começa funkeado. Os sambas Eu hein, Rosa e Cai Dentro vestem novas roupagens na interpretação segura de Elis. O tom pop é o que impera, mas não impede que o show caminhe para outros climas quando, por exemplo, traz à cena Conversando no Bar, de Milton Nascimento e Fernando Brant. Ela explode em Corsário, de João Bosco/Aldir Blanc, deixa o vozeirão sair pleno, como acontece na maioria das faixas.
Menino, da dupla Milton Nascimento/Ronaldo Bastos, faz um corte visceral na festa, trocando a leveza pela opressão. Quem cala sobre teu corpo/ consente na tua morte/ talhada a ferro e fogo, dizem seus versos iniciais. O último, porém - quem grita vive contigo - é acompanhado por um berro quase selvagem que vara todos os temores. Mais uma vez Elis fincando no palco sua persistência e fé.
A esse cenário passageiro emenda-se o clássico O Bêbado e a Equilibrista (Bosco/Blanc), com participação especial de Caçulinha, tocando sanfona. Ao anunciá-lo a cantora aproveita para destilar ironia ao lembrar-se dos tempos da falecida TV Record, quando ali se apresentavam no Fino da Bossa: ela, Caçulinha, Chacal, Camargo Mariano.
Maria, Maria fecha o espetáculo, com a poesia vigorosa de Brant sobre a gente que ri quando deve chorar/ e não vive, apenas aguenta. Em cena, explorando novos caminhos e sons, dando continuidade ao costume de enfrentar desafios e abraçar o novo, Elis era a própria Maria da canção: quem traz no corpo essa marca/ possui a estranha mania de ter fé na vida.


