Da Redação
Entre um trago e outro do inseparável cigarro, uma Elis Regina risonha e quase careca - ela tinha cortado o cabelo à máquina - fala das pessoas importantes de sua vida. No piano, César Camargo Mariano, seu marido na época, comanda os arranjos das interpretações.
Gravado em 1973, o programa ‘‘MPB Especial’’ foi o precursor do atual ‘‘Ensaio’’, da Rede Cultura. A emissora vai reapresentar o programa amanhã, a partir das 19 horas. É uma grande oportunidade para conhecer melhor uma das maiores cantoras brasileiras.
Elis Regina morreu em 1982 após uma carreira brilhante, deixando como respaldo a influência que se espalhou entre 99% das cantoras que surgiram desde então no País. No especial dirigido por Fernando Faro, Elis Regina está à vontade, fala de coisas alegres, se diverte, mas também mergulha em momentos de tristeza e depressão. Uma montanha russa sentimental que permeou toda a sua carreira, até a morte.
O formato do programa é similar ao do ‘‘Ensaio’’, também dirigido por Faro. A diferença está no excesso de closes, quase não se tem idéia da disposição dos músicos no palco. No repertório, Elis Regina canta ‘‘Estrada do Sol’’, ‘‘Eu Preciso Aprender a Ser Só’’ e ‘‘Folhas Secas’’.
Na época, a cantora estava feliz ao lado de César Camargo Mariano, se mostrava mais calma e amadurecida em comparação à ‘‘Pimentinha’’ que interpretou ‘‘Arrastão’’ nos anos 60. Esse sentimento envolvia a segurança que os arranjos de Mariano traziam às suas interpretações, e a certeza de um avanço técnico importante na qualidade musical, um degrau a mais no desenvolvimento de sua arte.
Mas, como a própria estrutura da cantora revelou, há momentos de tristeza profunda, como a interpretação de ‘‘Atrás da Porta’’, em que ela chora e lamenta a dor do abandono. Elis Regina conheceu cedo essa situação, quando teve que abandonar um amor no Rio Grande do Sul para tentar a sorte como cantora no Rio de Janeiro.
A cada música surge uma interpretação profunda, consistente. Em outras tentativas de registro na televisão, os resultados não foram os mesmos. No ‘‘MPB Especial’’ Elis Regina se abriu sem vestir o estereótipo de estrela. O preto-e-branco, associado aos closes e à luminosidade melancólica acentuam o clima intimista.
A TV Cultura vai reprisar o programa em homenagem aos 30 anos da emissora, 17 anos após a morte de Elis Regina. ‘‘Isso aqui é uma passagem. A gente vem para cá pra ficar um tempo, fazendo coisas, acrescentando uma bagagem grande, pra depois ir para uma outra e transar uma vida melhor, porque realmente só esta não tinha sentido’’, diz ela, no intervalo de uma música.
Apenas uma década depois de sua morte, Milton Nascimento admitiu que realmente teve dificuldade para compor depois que ela morreu, pois algumas músicas ele fazia ‘‘pensando’’ na voz de Elis. Este ‘‘MPB Especial’’ é uma rara oportunidade de entender por que gente como Milton - e tantos outros brasileiros - lamentaram que esta voz tenha se calado.

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