ELIS
PUBLICAÇÃO
sábado, 19 de janeiro de 2002
Zeca Corrêa Leite 
Curitiba Há anos atrás, no dia 20 de janeiro, um matutino trazia em sua manchete: Elis: Quatro Letras que Choram. O inspirado título condensava a dor maior vivida por milhares de fãs do Brasil (e mundo) afora, atônitos com a morte ocorrida no dia anterior da cantora Elis Regina. O abalo sísmico nas emoções era o princípio de um novo tempo o tempo que seria de recordações de uma das maiores intérpretes que o País conheceu.
Talvez Elis seja a única artista a vencer a barreira do tempo e manter-se atual, como se estivesse trabalhando normalmente sua carreira. Os discos continuam a ser editados, sejam nas fiéis versões dos vinis ou em coletâneas alteram-se as capas dos álbuns para fisgar o público, mas com ou sem alarde há sempre títulos dela nas prateleiras das lojas.
As vendas não são estrondosas, mas são constantes. Esse consumo contínuo faz da cantora um nome a ser preservado pela indústria. Não fosse essa realidade, então como explicar as dezenas de LPs e CDs colocados no mercado desde sua morte? Esse é um lado poucas vezes comentado pela imprensa, mas há poucos meses seu filho João Marcelo afirmava que Elis Regina ainda hoje mantém-se entre os artistas que mais vendem discos no Brasil.
O Brasil é pródigo no esquecimento, muito especialmente quando se trata de seus próprios ídolos. Aqui aposenta-se rapidamente quem chega no topo, falta a cultura da reverência como acontece nos Estados Unidos, que estendeu tapete para Frank Sinatra até o fim. Com essa característica, evidencia-se ainda mais a importância da gaúcha que deixou Porto Alegre em 1964, às vésperas de completar 19 anos de idade, para tentar a sorte no Rio de Janeiro. Veio, venceu e partiu mas continua sendo reverenciada 20 anos depois.
Vale dizer que a reverência não se dá apenas no sentido de sua memória. A importância de Elis na música continua presente nos dias de hoje, e vai desde os anônimos cantores da noite a estrelas populares como Sandy que teve a coragem de homenageá-la cantando Fascinação. Houve quem se arrepiasse indignado, mas esse é o leque do reconhecimento. A cantora islandesa Bjork também lhe dedicou uma música; o instrumentista Sadao Watanabe batizou um disco com seu nome. Exemplos como esse se espalham naturalmente, sem merecer muitas linhas nos jornais.
Mas é no cotidiano artístico que a força elisiana impõe-se com todas as fibras e cores. O estilo inconfundível que ela imprimiu na maneira de cantar servem como guia para as novas gerações e outras gerações nem tão novas. As mulheres, especialmente, tomam Elis como modelo não só pela perfeição técnica, mas também pela sinceridade da entrega àquilo que estava interpretando. Essa paixão avassaladora foi outra de suas marcas, e continua sendo motivo de fascínio e desafio.
A carga dramática que Elis Regina impunha às canções era única: ela conseguia inaugurar as letras, mesmo que fossem antigos clássicos. Da Bossa Nova ao samba rasgado havia sempre uma beleza a ser resgatada, escancarada. Quem ouvir com atenção uma das suas primeiras gravações, lá no começo dos anos 60, ela ainda uma menina, verá que tudo que viria depois, já estava ali. Dor de Cotovelo, de Menescal, é o exemplo mais bem acabado de como Elis colocava suas intenções e leituras.
A canção bossanovista diz a certa altura: amanhã ressaca, saco de gelo/ o bar não é doutor/ que cure dor de cotovelo. Pois bem, a garota solta em meio aos versos um ai dolorido, irreverente. Tamanha petulância para quem estava começando só tinha que dar no que deu uma estrela que não deixa de brilhar e iluminar os caminhos, mesmo 20 anos depois.


