O dia 19 de janeiro de 1982 caiu numa terça-feira, como hoje. Seria uma data comum, se não registrasse a dor e o luto para a música brasileira - às 11h45 dessa manhã, morria a cantora Elis Regina. A notícia correu célere Brasil afora, ultrapassou fronteiras, e conseguiu algo praticamente impossível: silenciou a cidade de São Paulo, como se uma névoa baixasse sobre suas ruas agitadas.
O inusitado continua. Passados 17 anos Elis Regina continua sendo referência musical. É motivo constante de citação de todos aqueles que apreciam música. Seus discos têm vendas contínuas, logicamente sem picos de procura, mas também sem fragorosas quedas. Não raro a artista é alvo de homenagens, como aconteceu numa novela da TV Globo, em que um dos personagens era fanático por ela. Aliás, o cenário de sua casa trazia um pôster enorme, com o nome de Elis brilhando em neon.
Vitória inequívoca num veículo anêmico de musicais mais sérios, como aconteceu em anos passados. Numa época como esta, em que se vê nas telas as mesmas caras e rebolados, ouvir a cantora em trilhas de novelas serve como alento. Bem ou mal, Elis ainda se faz presente num veículo de massa, que infelizmente, pelo imediatismo, não tem espaço para lembrar, através de documentários, daqueles que sustentaram a música deste País se foram.
Não dá para exigir muito de uma indústria que perdeu praticamente todo seu passado, restando minguadas imagens de outras eras. Numa ampla reportagem publicada recentemente, o jornal ‘‘O Estado de São Paulo’’ afirma que não restou uma única imagem do programa ‘‘O Fino da Bossa’’, apresentado por Elis e Jair Rodrigues, durante dois anos e dois meses. Foram sepultados no descaso centenas de registros de um dos mais importantes momentos da música brasileira.
Felizmente Zuza Homem de Melo, que cuidava da sonoplastia, tinha em casa rolos de fitas magnéticas com as gravações que fez diretamente da mesa de som. Os sons que ele guardou durante quase 30 anos foram parar em três CDs lançados pela gravadora Velas, em 1994. ‘‘Gravei porque achava que estava presenciando um momento histórico’’, declarou.
Quem se der ao prazer de ouvir os discos que compõe o conjunto ‘‘Elis Regina no Fino da Bossa’’ perceberá que aos 20 anos ela já era a ‘‘grande Elis’’, a artista que extasiava as platéias. Um CD contendo as gravações de seus dois primeiros discos (lançados em 1961 e 1962), produzidos pela Continental, desenha o perfil de uma cantora que estava além de seu tempo.
Elis Regina tinha 15 anos e a experiência provinciana do ‘‘Clube do Guri’’ e adjacências. Veio a São Paulo a convite de Nazareno de Brito, só depois de pedir permissão para a mãe, dona Erci. Gravou versões bem ao gosto da juventude, rock, chá-chá-chá e outros ritmos da época. Mas, por mais que o repertório seja datado, percebem-se as ousadias da menina.
Quem, naqueles tempos, iria mostrar que estava divertindo-se com o que cantava, como ela demonstra em ‘‘Dor de Cotovelo’’, música bossa-nova de João Roberto Kelly? A cantora parece dialogar com o infeliz que, por um amor mal resolvido, afogou-se no uísque. Como se ela, mal entrada na adolescência, soubesse das armadilhas da vida.
O incrível balanço bossanovista vem por inteiro em ‘‘Pororó-Popó’’, também de Kelly, com a letra ingênua que caracterizou o surgimento da banda ‘‘Las Secretarias’’, de Pepe Luiz, com versão de Martha Almeida, grande sucesso da temporada em outras vozes, e ‘‘Baby Face’’, na versão de Fred Jorge, também guardam os primeiros brilhos que viriam a estourar poucos anos mais tarde.
Assim como a gauchinha tinha um pé no futuro já nesse tempo, em 1977, já na condição de estrela, continuava sua busca por novos sons e experimentos. Foi assim que promoveu um espetáculo no Palácio do Anhembi, em São Paulo. Levou para o palco seu repertório já conhecido - com uma única música inédita -, mas a sonoridade era outra, funkeada. Ela queria o novo, e apostava na novidade convocando a platéia.
Foi esse show que se transformou no último disco inédito, ‘‘Elis Vive’’, lançado quase em segredo pela PolyGram, em setembro do ano passado. Parecia estar fadado ao silêncio e ao esquecimento. A fita contendo o espetáculo na íntegra estava indo para o lixo, juntamente com tantas outras, de uma produtora, quando um técnico de som quis saber o que ela guardava. Recuperada nos Estados Unidos, chegou ao CD que poucos conhecem.
A caixa que a PolyGram lançou, com toda a discografia de Elis do período em que permaneceu naquela casa, tinha um preço proibitivo, multiplicando-se o preço de cada disco. Em Curitiba algumas lojas como a Grasson (Rua Mal. Deodoro, 400) dispensaram o estojo e colocaram os produtos a granel.
Os fãs, aos poucos, poderão completar a coleção. Elis está ali, cantando e contando a sua história. Porque dessa voz saem as emoções inesgotáveis. Perfeita em sua arte, Elis Regina queria mais:
- De excelentes cantoras o Brasil e o mundo andam cheios. A mim não interessa ser uma boa cantora a mais. Quero usar o dom que a Mãe Natureza me deu para diminuir, com ele, a angústia de alguém. Essa idéia é que pode dar sentido ao meu trabalho.

Num dia 19
Que coincidências de datas podem existir na vida de uma pessoa? E o que elas querem provar com isso? Alguns dias 19 estão na biografia de Elis Regina sinalizando inícios e finalizações. Alguns deles:
• 19 de abril de 1965, segunda-feira - O Teatro Record Consolação (antigo Teatro Paramount), apinhado de gente, serviu de cenário para a estréia do programa ‘‘O Fino da Bossa’’, apresentado por Elis e Jair Rodrigues. Iria se constituir num dos mais importantes momentos da música brasileira. Pelo seu palco passariam cantores, compositores e grupos musicais, todos de altíssimos quilates. Gente da velha e da nova guarda era recebida no espaço enobrecido, que ia de Chico Buarque a Elza Soares, Dorival Caymmi, Ataulfo Alves, Rosinha de Valença, Agostinho dos Santos, Baden Powel.
• 19 de junho de 1967, segunda-feira - A queda de audiência motiva o fim do programa. Ele era gravado nas noites de segunda-feira e ia ao ar às quartas, e por bom tempo foi líder de audiência no horário, como acontecia com outros musicais da emissora.
• 19 de setembro de 1981, sábado - Elis faz uma única apresentação do show ‘‘Trem Azul’’ no ginásio de esportes Gigantinho, em Porto Alegre. Única e última apresentação em sua terra natal.
• 19 de janeiro de 1982, terça-feira Elis morre em São Paulo, vítima da combinação de álcool e cocaína.

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