Elia Kazan recebe Oscar Especial
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sábado, 20 de março de 1999
Celso Mattos 
A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood faz hoje uma tardia e merecida homenagem. Seria lamentável e imperdoável se Elia Kazan, 89 anos, morresse sem ter o conjunto de sua obra coroado com o Oscar Especial. O cineasta que dirigiu filmes como Uma Rua Chamada Pecado (1951), Sindicato de Ladrões (1954), Vidas Amargas (1955) e Clamor do Sexo (1961) foi um dos maiores críticos do sonho americano. É inegável que sua filmografia possui uma plenitude criadora pouco vista na história do cinema.
Elia Kazan foi escolhido pelos 39 membros do Conselho da Academia que, no passado, homenagearam com o Oscar Honorário ícones como Buster Keaton, Charles Chaplin, Greta Garbo, Orson Welles e Akira Kurosawa. No entanto, o que surpreende é que esta escolha foi unânime e, com certeza, a mais polêmica da história do Oscar. Durante décadas, o cineasta simbolizou o período mais negro de caça às bruxas nos Estados Unidos. Em 10 de abril de 1952, Elia Kazan - que na época era um importante diretor da Broadway - denunciou ao Comitê de Atividades Antiamericanas do Senado oito companheiros do Group Theater que, como ele, haviam pertencido ao Partido Comunista.
Devido a isso, ele foi amaldiçoado em Hollywood. Mas, ao contrário do que muitos pensavam e diziam, sua carreira não foi afetada. Elia Kazan conseguiu passar pelo moedor de carne do macarthismo sem cair no ostracismo. Por mais discutível que tenha sido seu ato, Kazan ficou ainda melhor como homem e como cineasta, deixando para o cinema um legado indiscutível. Além de cenas memoráveis, seus filmes imortalizaram atores e atrizes. Alguém consegue esquecer James Dean em Vidas Amargas? A cena em que ele grita Fale comigo, mãe; fale comigo, mãe, enquanto é arrastado pelo corredor escuro de um bordel, é o maior lamento que a América já registrou em celulóide.
Em Uma Rua Chamada Pecado, o cineasta presenteou Vivien Leigh com uma das mais belas interpretações femininas da história do cinema americano. É possível esquecer Marlon Brando abrindo seu coração para o irmão no banco traseiro de um carro em Sindicato de Ladrões? Muitos consideram este filme um elogio à delação. Bobagem. Por mais polêmico que ele seja do ponto de vista ideológico, não deixa de ser um clássico magistralmente interpretado e dirigido. Mas o talento de Elia Kazan deixou sua marca sublime em outros filmes como Rio Violento, O Último Magnata, Viva Zapata! e Movidos pelo Ódio.
Há alguns anos, o American Film Institute tentou lhe dar um prêmio de carreira, mas seus membros não concordaram em premiar um delator. Mas, ironicamente, o Festival de Cinema de Berlim - conhecido como um dos mais politicamente engajados - há três anos deu a Elia Kazan o Urso de Ouro Especial pelo conjunto de sua obra. Foi preciso a Alemanha reconhecer sua inegável contribuição ao cinema para que os Estados Unidos o perdoassem. Muitos outros artistas denunciaram seus colegas de profissão ao Comitê, mas nenhum foi tão amaldiçoado como Elia Kazan.
Em entrevista dada ao crítico francês Michel Ciment, o cineasta resumiu a si mesmo dizendo: Não fiz tudo o que gosto, não gosto de tudo o que fiz, mas esta é minha vida. Aceitem-me pelos meus defeitos. Esta noite ele será perdoado. Merecidamente perdoado como homem e artista.Agência Estado(Não é permitida a reprodução total ou parcial desta foto dentro ou fora do Brasil)Elia Kazan: ele deu ao cinema filmes antológicos e caiu em desgraça como delatorDiretor que quase caiu no ostracismo por delatar companheiros ao macarthismo ganha reconhecimento da Academia


