ELETRÔNICO À BRASILEIRA
Ranulfo Pedreiro
De Londrina
Os grandes nomes da música eletrônica mundial não esperavam que um dia todo seu aparato técnico fosse substituído pela percussão brasileira. Pois é, todas as características que têm lugar garantido nas pistas ganharam sotaque acústico e suingue mestiço em Móbile, novo disco de Paulinho Moska.
Se a perspectiva de se infiltrar na sonoridade eletrônica com percussão nacional traz ineditismo, o resultado é ainda melhor. Ao optar pelo caminho mais arriscado, Paulinho Moska acertou sem perder a personalidade. O trabalho ganhou respaldo dos produtores Marcos Suzano e Celso Fonseca.
Já na primeira faixa a batida techno-samba-funk ganha destaque sem presença de bateria ou guitarra. Comandando a harmonia destacam-se o violão de Paulinho Moska e o baixo de Dunga. O contraste ressalta a brasilidade do compositor, e o aspecto eletrônico se configura com algumas interferências - ruídos - comandados por Sacha Amback.
Ao fazer um techno às avessas, Paulinho Moska se sente à vontade para interpretar medalhões como País Tropical, de Jorge Ben, e Retalhos de Cetim, de Benito di Paula. Entre as não-inéditas aparece também O Mundo, de André Abujamra.
É um trabalho muito diferente de todos os que eu tinha feito. É um disco com uma atmosfera eletrônica, mas usamos percussão, violões, baixo e algumas interferências. Ao mesmo tempo, foge ao formato normal do pop, explica Moska, em entrevista por telefone. A fórmula dá resultado e agrada aos ouvidos. Um prato cheio para quem procurava novidades na música brasileira.
O disco tem muito punch, é batucada pra caramba. Apesar da atmosfera, ele não parece com os grupos eletrônicos. Eu não quero isso, quero ser brasileiro. O CD parece muito drumnbass, mas é bem brasileiro, assegura.
Por trás do eletrônico, há passagens de ritmos nordestinos, samba e funk. Esse formato acaba dando assessoria às novas melodias do compositor, que não se apagam em meio à salada rítmica. Isso fica explícito, por exemplo, em Onde Anda a Onda. Também não impede canções com arranjos mais delicados, como Tudo é Possível.
Seguindo os rumos da letra de Castles Made of Sand, de Jimmi Hendrix, Paulinho Moska compôs a balada Castelos de Areia, arranjada com o violino de Jorge Mautner e interferências de André Abujamra. O time de convidados ainda conta com Carlos Malta no sax e pífanos, Roberto Marques no trombone, Chico César, Lenine e Zeca Baleiro. Também há citações que vão de Aaron Copland a Titãs.
Isso tudo veio também por conta da globalização, que é você pegar o seu micro e tornar macro, mas não se trata da cultura se tornar uma coisa só. Trata-se das microculturas ganharem seu lugar no mundo. Eu queria fazer um negócio novo, mas tropical, não inglês, ressalta Moska.
A idéia surgiu durante uma viagem de Paulinho Moska e Marcos Suzano ao Japão. Começamos a conversar sobre o assunto e o Suzano falou: Dá para fazer isso com percussão. Trabalhamos o violão com filtros e usamos até samplers de orquestra. Pode ser que eu seja imodesto, mas esse disco não parece com nada que eu já ouvi, completa.
Móbile - lançado pela EMI - passa realmente pela personificação de um trabalho construído para se diferenciar de suas referências. Ao invés de seguir os clichês do mercado, Moska arriscou a novidade.





