Se você tiver muitos na tua cozinha, o título pode ser mudado para: ''quinquilharias que atravancam armários''. E que, de certa forma, não estarão disponíveis quando você mais precisar deles. Dá na gente pura revolta quando verificamos que de repente, não mais que de repente... o microondas quebrou!
O pior (além da imensa pilha duplicada de pratos para lavar) é que a gente se acostuma, se vicia até, e quando eles pifam, você vai se sentir, no mínimo, voltando à idade da pedra tendo que requentar a comida na velha e abandonada caçarola. Experimente bater claras ou musses com um garfo, em dez dias a academia estará dispensada. O problema, sendo destro ou canhoto, é que o treinamento no outro braço vai ser duro. Aí, você vai ter que voltar para os aparelhos da academia, meses para corrigir o ''aleijão''.
Brincadeiras à parte, nós mulheres, adoramos uma maquininha nova na cozinha. Mas sem exageros por favor! As cozinhas humanistas modernas exigem um toque artesanal, com uma bela réstia de alhos (de verdade, não de plástico) e uma panela de ferro, bem ariada pronta para qualquer eventualidade. No livro de Charles Dickens que se chama David Coperfield, seus amigos moram numa cabana/cozinha, limpa e aconchegante, sempre perfumada com aroma de boas comidas, as panelas e linguiças penduradas em cima do quase que único e principal utensílio indispensável - o fogão e sua chaminé. O exemplo contrário que me vem à mente é a cozinha modernérrima e asséptica da irmã de Monsier Hulot, no filme ''Meu Tio''. Nesta cozinha, tudo é automatizado, ela não precisa pôr as mãos em nada, até o bife pula sozinho da chapa, numa sátira muito engraçada ao consumismo e à vida moderna. Os antigos, e um pouco mais sábios, diziam que o importante era ter um Dzim, que são espíritos de cozinheiros ''do bem''. Os chineses diriam que tua cozinha tem que ter ''chi'', e mais modernamente, eu diria que ter uma boa ajudante já é meio caminho andado para que teus eltrodomésticos funcionem sempre, por algum tempo. Parece feitiço, mas já aconteceu de quebrarem todos ao mesmo tempo quando determinada pessoa passou algumas horas em minha cozinha. Cruz credo! Assim não há réstia de alho que aguente!
É legal ter uma cozinha equipada, mas, se por um lado as máquinas substituem o trabalho, às vezes elas dão trabalho, e, como nada substui o talento, na cozinha, nada substitui o calor humano, que, além de poder contar quase sempre com ele, vai fazer comida muito mais gostosa que qualquer máquina.
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Maria de Los Angeles é chef de cozinha do restaurante Paella Como Te Gusta e colaboradora da Folha.

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