Foi no sítio onde mora que Bruno Emanuel Givigier, 11 anos, colheu as sementes conhecidas como ''lágrimas de Nossa Senhora'' que agora enfeitam a pulseira que está confeccionando com o auxílio do tear de miçanga. Feliz com o resultado do seu trabalho manual, contou que a família deu apoio quando informou que gostaria de fazer o curso de tear que a escola onde estuda ofereceria em contraturno. Ele é um dos 34 integrantes, entre crianças e adolescentes, moradores dos patrimônios Regina e Espírito Santo, no município de Londrina, que fazem parte do projeto ''Teares Alegria'', em atividade desde março deste ano e patrocinado pelo Programa Municipal de Incentivo à Cultura (Promic). De forma lúdica, vão aprendendo uma habilidade artesanal que pode vir a tecer um futuro melhor e abrir novas perspectivas de trabalho para eles.
''Por enquanto, eles não podem vender os produtos que confeccionam, porque isso poderia ser considerado trabalho infantil. Mas ficam com as peças que produzem e já vão treinando criativamente um tipo de artesanato que no futuro poderá se tornar uma fonte de renda para eles, evitando assim o problema do êxodo rural, tão comum por aqui. O objetivo é procurar criar uma cultura local desse tipo de arte com o tear'', explicou a coordenadora do projeto, a psicóloga Maria Amélia Melo que há 10 anos desenvolve na região o projeto de arte circense e de dança Núcleo Cometa Alegria.
Além do trabalho de resgate cultural, Maria Amélia ressalta que o projeto contribui para mesclar técnicas e matérias-primas disponíveis na região com as técnicas da tecelagem. ''Os participantes pesquisam novos materiais e aprendem a produzir suas peças com taquara, bambu, fibra de bananeira e outros produtos locais misturados com fios e linhas tradicionais'', afirma. O projeto também formou instrutores capacitados para repassar as técnicas para outras turmas, garantindo assim agentes culturais e multiplicadores da arte de tear nos dois núcleos rurais.
De vários tipos e formatos, o tear também chama a atenção pelos diferentes pontos utilizados para objetos específicos. Para fazer faixas para o cabelo ou que serão utilizadas como alças de bolsas deve se utilizar o ''tear de faixa''. Já os tapetes são confeccionados a partir do ''tear de pente liço'', em que se utiliza um pente plástico para acertar os fios no instrumento manual. O tear de prego, assim como o minitear (miniatura do tear de pedal), serve para fazer cachecóis. Há também o tear específico para bijuterias.
O aluno Alexandre Aparecido de Oliveira, 12 anos, já está ficando craque no manuseio do tear de pente liço. Bom aluno, se diverte com as modalidades de pontos. ''No começo, os meus amigos chegaram a me criticar, dizendo que o tear era 'coisa de menina', mas não ligo. E gosto de aprender em todos os tipos de teares'', contou.
Luciana Fernanda Pereira, 12 anos, estava toda orgulhosa com a cinto cor-de-rosa, feito no tear, que ela mesma confeccionou. Agora, a dedicação é para terminar o cachecol no minitear. ''No começo achei difícil, mas é muito legal. Dá vontade de ter um tear em casa'', comentou.
Caso o projeto seja aprovado novamente pelo Promic, a intenção é viabilizar lanches para os participantes e contar com o auxílio da profissional de moda Bianca Baggio, que irá fazer um trabalho de educação visual global com os participantes. ''A idéia é proporcionar uma troca de conhecimento que permita o refinamento do produto para que futuramente ele tenha uma maior visibilidade no mercado'', argumentou.

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