Eles nunca saíram de casa
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segunda-feira, 14 de março de 2011
Rafael Ceribelli <br> Reportagem Local 
Seguindo pelo asfalto vazio da PR-340 tendo como companhia o brilho de um céu caprichosamente estrelado, na última sexta-feira o carro da equipe da FOLHA rasgava o silêncio da noite em direção à pacata cidade de Lupionópolis, localizada na microrregião de Astorga, extremo norte do Paraná. A agradável brisa de verão, misturada com a visão bucólica das plantações de trigo, formavam o pano de fundo perfeito para uma reunião entre amigos em volta de uma fogueira acesa, com bebidas e violão.
Mas a calmaria era só aparente, um tira-gosto do que estava por vir. Depois da nossa equipe ser recebida de braços abertos pela estátua do Cristo - no portal de entrada de Lupionópolis - a movimentação nas entranhas da pequena cidade já assumia um caráter diferente, e era possível observar nas ruas carros chegando de Centenário do Sul, Jaguapitã e Prado Ferreira. Naquela noite, a cidade era um ponto de encontro; o motivo era a realização de um dos maiores eventos da região, a edição 2011 da festa do Lupeão.
''A festa já acontece há uns 10 anos, e é muito bom para a gente daqui'', explica Erinaldo Silva Santos, responsável pelo brinquedo de Touro Mecânico da exposição. ''Faz três anos que eu venho para trabalhar, e sempre acontece show bom, é coisa grande mesmo'', orgulha-se Erinaldo, e não é para menos; a programação do evento no pacato município - que conta com aproximadamente 5 mil habitantes e dobra sua população durante a festa - é digno de metrópole: este ano, a dupla sertaneja mais famosa do Brasil, Zezé di Camargo e Luciano, foram convocados para subir ao palco da festa do Lupeão.
E nós não éramos os únicos visitantes londrinenses atraídos pela boa e velha música sertaneja. ''Para mim, especial mesmo é o Zezé e o Luciano. Eu amo, amo eles. Tenho várias fotos, e sigo eles por todo o lugar'', declara a fã Cristina Habowski que, sozinha, embarcou no ônibus de Londrina para Lupionópolis, e tremia de nervosismo na expectativa de ver seus ídolos de perto, por mais uma vez. ''Desde sempre eu gosto deles, é demais. Olha lá, eles chegaram!'', apontou, ao observar o carro chegando, e sendo rapidamente cercado pelas fãs e por gritos estridentes. ''Ai! Aguenta coração.''
Simpáticos como sempre, Zezé e Luciano chegaram separados, e cumprimentaram amigavelmente, pelas grades do portão, todos os fãs que vieram recebê-los. Para entrar no camarim, era necessário ter uma pulseirinha azul, distribuída para alguns convidados; sem contar com essa regalia especial, Cristina tinha um plano. ''Eu não fico nunca de faixa na cabeça, porque você precisa ser discreta, controlada, tem mais chance de entrar no camarote assim'', explicou a fã, contando com a experiência de anos de tietagem. Dito e feito, ela conseguiu sem problemas furar o esquema de segurança e se infiltrar no backstage antes mesmo da nossa equipe de reportagem.
O clima, por todos os cantos do camarim, era de alegria e emoção. ''Quando nós chegamos em uma cidade pequena, para apresentar pela primeira vez, existe uma expectativa diferente do público. Uma recepção que vai desde o hotel até a hora do show'', comenta Zezé di Camargo, apontando a diferença entre os shows realizados em metrópoles e em cidades pequenas. ''O pessoal está acostumado a nos ver só pela televisão. Daí começa a gritaria, os pedidos de autógrafo e, com o barulho na porta do hotel, a gente fica o dia todo sem dormir'', brinca Zezé, com um sorriso. ''Isso tudo é até eles sentirem que nós também somos pessoas tranquilas, que não somos nem um pouco diferentes em nada, e que somos seres humanos normais, assim como eles. O carinho, o amor e a nossa doação em relação ao público é igual em qualquer lugar do Brasil'', completa Luciano.
Quem sentiu intensamente esse carinho foi Cristina que, conseguindo como prêmio pela persistência mais uma foto autografada para sua coleção, mal conseguia conter a emoção. ''Ai, foi tão bom, eu vi eles de novo! Foi tão bom!'', repetia, sem parar, enquanto seguia sorridente em direção ao palco.
''Mesmo com um nervosismo inicial por parte do público da cidade pequena, depois que o show começa, depois daquele primeiro acorde, é tudo igual. Cai no lugar comum e fica tranquilo'', explica Zezé, destacando a empatia do público com a música. ''Estamos em casa, sempre'', confirma Luciano. Quem conferiu o som da famosa dupla, acompanhada pelo coro do público sob o céu estrelado daquela noite de verão, não consegue discordar. Em Lupionópolis ou em qualquer outro palco, enquanto contarem com o apoio de uma legião de fãs fiéis, eles estão, mesmo, em casa.


