Arte, beleza e simplicidade. Cada tiradentino descobre sua fórmula de encantar com sua arte, cada um com o seu dom. Quem vai a Tiradentes não pode deixar de visitar esses personagens, que já fazem parte do patrimônio cultural da cidade.


Dona Xepa, a cozinheira regional autêntica

''Obrigado e até amanhã.'' Por incrível que pareça essa é a frase mais escutada por Evair Rosa da Silva, de 35 anos, quando entrega a conta para seus clientes. Dono do restaurante ''Dona Xepa'', no centro, ele já está acostumado a receber elogios e a rever seus fiéis clientes. O segredo para tanto sucesso não é só uma excelente cozinheira, especialista em comida mineira. No restaurante de Evair uma pitada de simpatia, uma boa dose de bom atendimento e preços justos fazem a diferença. ''Meu lema é servir bem e fazer as pessoas se sentirem em casa'', diz o ex-pedreiro, de uma família pobre de nove irmãos. Ele construiu o restaurante no terreno herdado do pai. O clima familiar entre os funcionários, os mesmos desde o início do negócio, contagia os fregueses saem de lá mais do que satisfeitos. Para os mais frequentes (que passam lá mais de duas vezes), Evair guarda uma surpresa extra: um delicado paninho com um ''Dona Xepa'' bordado nele. Na Rua Ministro Gabriel Passos, 26A, tel. (0--32) 3355-1767.

Os anjos e santos de Jango

Quem passa pela janela da casa de João Goulart Silva, o Jango, não consegue conter a curiosidade de saber o que ele faz curvado e cabisbaixo. E quem entra em sua sala de visitas, que na verdade se transformou em ateliê, não consegue disfarçar o encanto. Em meio a ferramentas e a uma fina poeira, há santos, anjos e querubins, em madeira ou pedra. Todos talhados e esculpidos à mão por Jango ou por seu filho, que já pegou gosto pelo ofício do pai. Aos 18 anos ele largou a profissão de ourives para trabalhar com madeira. Hoje, aos 41, só trabalha com encomendas, pois suas peças nunca se acumulam nas estantes. O preço de seu trabalho a peça mais barata não sai por menos de R$ 80 é proporcional à paciência e à perfeição no talhe da madeira, estampadas no rosto de suas imagens sacras e no olhar concentrado do escultor. Na Rua Direita, 32, tel. (0--32) 3355-1756.

Quadros de Zé Dama

Foi preciso se aposentar para que ele descobrisse seu dom: a pintura. Depois de 1991, quando vendeu o primeiro quadro, José Vicente Ferreira, ou Zé Damas, como assina em suas obras, nunca mais largou o pincel. ''Pinto o dia inteiro, de noite, de madrugada...'', conta animado. Quando o dinheiro apertou, ele começou a pintar em pedras (cascalhos), dos rios da região, que hoje são sua marca registrada. Junto com as cabacinhas, elas são excelentes souvenirs, pois Zé Damas faz questão de só retratar paisagens da cidade natal. Seus pontos preferidos: o chafariz, que fica na frente de sua loja-ateliê, e o Largo do Ó, onde está a última casa em que viveu de aluguel. Zé Damas tem fama. Suas coloridas pinturas, de estilo mais popular, já foram expostas em Washington (EUA) e seu nome consta na lista de acervo do Museu Internacional de Arte Na‹f do Brasil, no Rio de Janeiro. Na Rua do Chafariz, 130, tel. (0--32) 3355-1578.

Guloseimas do seu chico

Uma pequena placa e a fachada discreta são, na verdade, a porta de entrada para um templo da perdição. É impossível conter-se frente à tentação dos doces de Chico Doceiro, de 71 anos. Cocadas, pés-de-moleque, doces de laranja, de abóbora, de figo e de mamão, cajuzinhos e, claro, os famosos canudinhos de doce de leite, campeões de venda. Tudo feito quase que na hora por seu Chico, sua mulher, dona Conceição, e o filho do casal, José. Seu amor por fazer doces começou na infância e dura até hoje, 37 anos depois de vender os primeiros canudinhos. ''Isso aqui é brincadeira para mim'', diz, sorrindo, enquanto mexe a colher de pau na imensa panela de cobre sobre o fogão de lenha. Na Rua Francisco Pereira de Morais, 74, bairro Canjica, tel. (0--32) 3355-1900.

O barro nas mãos de Tião do Barro

Ao contrário de seus nove filhos, Sebastião Augusto de Freitas, o Tião Paineira, não tem problema em passar os dias com a mão no barro. Aliás, os dias não, a vida toda. Há 60 anos suas ágeis mãos moldam, ao ritmo do torno, moringas, jarros, panelas, travessas, potes e divertidos apitos em forma de passarinhos, seguindo a tradição da família de oleiros. ''É hereditário'', conta. ''Não deu para ficar nobre com esse trabalho, mas consegui criar todos os filhos.'' Conhecido por ser bom contador de histórias, não há cliente que não se encante com essa figura de 75 anos. Parar de trabalhar por causa da idade? Nem pensar. Ele pretende continuar por muito tempo dividindo os dias entre o torno e o forno que seca as peças sempre com preços baixos pois, como ele diz, ''morrer não faz nada bem à saúde''. Na Rua Alvarenga Peixoto, 624, perto do centro.

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