ELES ESCREVEM PORQUE...
Nelson Sato
De Londrina
O escritor Max Frisch notou, certa vez, que não há forma de expressão mais nula para um escritor do que uma entrevista. Nela, salientou, ou fazem-no dizer novamente o que escreveu em seus livros e artigos e ele o diz necessariamente menos bem ou levam-no a falar do que não conhece.
O livro Por que Escrevo?, que está chegando ao público pela editora Escrituras, não chega a reunir entrevistas com escritores mas deixa um bocado deles titubeantes diante da simplória e intrigante pergunta do título. Frequentemente eu me faço esta pergunta. Não tenho uma boa resposta... enrola o romancista norte-americano Paul Auster.
Tenho a impressão de que se eu soubesse responder a essa pergunta deixaria de ser escritor. Está além da minha compreensão... tergiversa o mineiro Fernando Sabino. Eu escrevo romances há 35 anos. E nunca soube por quê salienta o francês Alain Robbe-Grillet. É a questão mais difícil que existe. Ela é tão difícil que respondo sempre com uma mentira confessa o suíço Friedrich Durrenmatt. E por aí vai.
Frisch livrou-se dessa, ficando fora da enquete, mas nada indica que esteja excluído das demais perguntas-respostas compiladas pelo pesquisador José Domingos de Brito para a série Mistérios da Criação Literária. Por que Escrevo? é o título inaugural da série, que inclui ainda mais seis volumes. O próximo será Como Escrevo? O livro de estréia reúne depoimentos dos mais importantes escritores do mundo.
É rigorosamente organizado com um autor em cada página, que apresenta sua resposta seguida de um microperfil. Entre as dezenas de elencados figuram nomes como Jorge Luis Borges, José Saramago, Samuel Beckett, Gabriel Garcia Marquez, Willian Faulkner, Clarice Lispector, Normam Mailer, Millôr Fernandes, Carlos Drummond de Andrade, Garcia Lorca, Marguerite Duras, Jorge Amado, Mário de Andrade, Umberto Eco, Paulo Coelho, Octávio Paz e Lygia Fagundes Telles.
Para dar cabo da obra, Domingos de Brito recolheu depoimentos em jornais, revistas e livros a partir de uma documentação de cerca de 700 amostras. Ele lembra, no texto introdutório, que coletâneas semelhantes já foram lançadas na França. Cita o livro Porquoi écrivez-vouz? (editado pelo jornal Libération em 1985) e uma edição especial da revista surrealista Litterature (publicada em 1919) que trazia a mesma pergunta.
O prefácio do livro é assinado por Fábio Lucas, a introdução é de Daniel Piza e a apresentação de Bernardo Ajzenberg. O último capítulo traz uma bibliografia comentada, onde o autor resume obras que tratam da questão enfocada no volume. A coletânea é dedicada à escritora Clarice Lispector. Ao longo das páginas, espalham-se diversos tipos de respostas para a mesma pergunta.
Eu escrevo poesia porque minha cabeça contém uma multidão de pensamentos, 10 mil para ser preciso diz Allen Ginsberg. Só se escreve para provocar um amigo, comer alguma mulher ou ganhar muito dinheiro revela Ivan Lessa. Acho que escrever é a idéia de sobreviver. Realmente, outros motivos me parecem insuficientes. Acho que é o duro desejo de durar especula Antonio Callado. Eu escrevo por necessidade. Quando tenho um furúnculo e ele está maduro, eu o aperto afirma Graham Greene.
Domingos de Brito pretende convocar os leitores para participarem da confecção dos próximos volumes da série. A idéia é explorar o caráter coletivo de sua realização. Qual aficionado que não tem depoimento ou citação bibliográfica de seus autores prediletos? Quantos destes estariam dispostos a contribuir com a pesquisa dos mistérios da criação literária através da Internet? conclama ele. O livro está disponível no site www.capivara.com
A série vai se completar com os volumes Como escrevo?, Orientações Literárias, Cinema e Literatura, Jornalismo e Literatura, Sociedade e Literatura e Religião e Literatura.
Trechos de depoimentos
Escrevo romances para me perpetuar, para ter fama, glória, dinheiro, amor, essas coisa comezinhas da vida (Paulo Francis)
Eu tive desde a infância várias vocações que me chamavam ardentemente. Uma das vocações era escrever. E não sei por que foi essa que segui. Talvez porque para as outras vocações eu precisaria de um longo aprendizado, enquanto que para escrever o aprendizado é a própria vida se vivendo em nós e ao redor de nós (Clarice Lispector)
Sou um escritor essencialmente horizontal. Não posso pensar mais do que quando estou encostado com um cigarro nos lábios e uma xícara de café ao alcance da mão. A xícara de café pode ser trocada por um copo de vodka, não há por que ser maníaco. Não uso máquina de escrever, redijo à mão, com lápis. Trabalho quatro horas por dia durante quatro meses por ano. Sou um estilista: me preocupa mais onde colocar uma vírgula que ganhar o prêmio Nobel (Truman Capote)
Escrever é uma questão muito humana. Pode-se escrever ou não escrever, mas o motivo para escrever é escrever. É algo que, não sei por que me pergunto; nenhum escultor se pergunta por que esculpe; nenhum pintor por que pinta. Não se faz esta pergunta a eles em entrevistas. Por que esta é uma pergunta para um escritor? (Friedrich Durrenmatt)
Escrevo para que meus amigos me amem mais (Gabriel Garcia Marques)
Escrever é horrível, é como sofrer um colapso nervoso. Quando escrevia, alcoolizei-me completamente, mas logo me recuperei. Quando alguém planeja escrever um livro, tem que se considerar um caso psiquiátrico (Lawrence Durell)
No fundo, é uma coisa que não entendo: por que algumas pessoas têm necessidade de viver duas vezes? Uma vez quando vivem, e outra quando escrevem? E por que esta segunda vez é mais importante que a primeira? Isto é tão misterioso como concluir que as horas de sono, o sonho, são mais importantes do que as horas que passamos acordados. Vou tentar fazer uma analogia. O dia é legível. A noite é ilegível. O escritor é aquele que pode ler a noite (Marguerite Duras)
Os poetas dizem a verdade quando dizem que, ao começar a escrever um poema, não sabem o que vão dizer. Escrevemos para dizer o não dito, e para conhecê-lo (Octávio Paz)Chega às livrarias Por que Escrevo?, primeiro volume de uma série sobre os mistérios da criação literária reunindo depoimentos de escritores
Arquivo FolhaWillian Faulkner: Escrevo para ganhar a vidaArquivo FolhaClarice Lispector: Tive desde a infância várias vocações. Uma das vocações era escreverArquivo FolhaJorge Luis Borges: Sempre soube que meu destino era o destino literário do leitor





