Eles carregam o piano nas costas (ou o contrabaixo, a tuba, o acordeom, o violoncelo...)
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terça-feira, 20 de julho de 2010
Francismar Lemes<br>Reportagem Local 
Com técnica perfeita na hora de tocar um instrumento, como o contrabaixo e violoncelo, os músicos também precisam ser virtuoses para transportá-los, já que em alguns casos são maiores que os donos. Carregar o piano nas costas, com esses profissionais, não é metáfora. É ônus da profissão.
Não são somente os contrabaixistas e violoncelistas que precisam exercitar os músculos para transportar os instrumentos. Tocadores de tuba e acordeom também necessitam de uma paciência musculosa e bom humor sarado para não perder a esportiva diante do inevitável problema.
Diz a lenda que o londrinense Jorge Luiz Silva, contrabaixista da Orquestra Sinfônica da Universidade Estadual de Londrina (Osuel), transportava o contrabaixo em moto-táxi, mas o músico diz que não é bem assim e que a brincadeira surgiu com a história de um instrumentista de Tatuí (SP) que transportaria o instrumento numa bicicleta.
Descontando os exageros, Silva tem histórias de proezas, como no tempo em que com o contrabaixo ia aos ensaios e apresentações a bordo de um fuscão. Agora, esse negócio de transportar um instrumento grande em bicicleta só mesmo em Tatuí.
Um metro e setenta de altura e corpo curvilíneo. A sua aparição em qualquer lugar é de parar o trânsito. Porém, não se trata de nenhuma modelo capa de revista, mas isso sempre acontece quando um contrabaixo está para entrar num carro. Todos os olhares se voltam para o instrumento.
''Recentemente, eu fui buscar um amigo do Festival de Música de Londrina em um hotel. Quando saíamos, todos os funcionários nos acompanharam para ver como eu iria fazer para entrar no carro com o contrabaixo'', conta Silva.
Se o instrumento falasse certamente diria que o pior amigo de um contrabaixo é o taxista. Silva e outros contrabaixistas são unânimes ao dizer que a maioria dos taxistas recusa transportar o instrumento. O londrinense já esperou quatro, cinco, seis táxis até um aceitar a viagem.
''Uma vez, fiquei um tempão esperando táxi até que um aceitou a corrida, mas cobrou cinco vezes mais que o valor correto'', lembra a contrabaixista paulistana Luciane Canziani de Almeida, que viajou de carro a Londrina com o contrabaixo deitado no banco de trás.
Além dos contratempos com o transporte, as musicistas ainda enfrentam outras dificuldades, como o peso do instrumento. Em média, o contrabaixo pesa entre 12 e 17 quilos, o que exige preparo físico das mulheres.
Contrabaixista da Orquestra da Ópera do Arizona desde 2001, o londrinense Waldir Bertipaglia ministra master classes em importantes festivais internacionais, rodando o mundo com o contrabaixo ''embaixo do braço''.
O músico afirma que falta regulamentação para o transporte do instrumento, principalmente em aviões, o que evitaria alguns excessos. Como o que aconteceu nesta temperada na América do Sul em que, em Buenos Aires (Argentina), uma companhia aérea se recusou a embarcar o contrabaixo.
''É um problema global dos contrabaixistas. Para transportar em avião é preciso de case, uma caixa do tamanho de uma geladeira para poder viajar. Quando chegamos ao aeroporto nunca sabemos quanto vamos pagar de excesso de bagagem'', comenta o músico.
Milhas aéreas depois e milhares de quilômetros rodados, Bertipaglia desenvolveu uma técnica própria pelo menos para se sair bem na hora de pegar um táxi. A dica é deixar o contrabaixo longe, chamar o táxi e só quando já tiver contratado a corrida avisar que vai pegar o instrumento. Aí não tem erro. Afinal, o combinado não é caro.


