Eles cantam a mesma língua
Eles cantam a mesma língua
Coletânea reúne compositores da
língua portuguesa e exibe riqueza
de ritmos que vão do choro ao fado
ReproduçãoMarisa Monte e Paulinho da Viola estão entre os brasileiros que participam do primeiro CD do Projeto Enlace
Ranulfo Pedreiro
Filipe Mukenga nasceu em Angola e há anos vive em Portugal. Embora seja um músico praticamente desconhecido no Brasil, Mukenga mantém características que se aproximam da cultura brasileira. Além de falar português, Mukenga é um compositor que mescla ritmos africanos com jazz. O resultado é um som personalizado familiar aos ouvidos tupiniquins.
O mesmo acontece com Arnaldo Antunes e Marisa Monte, autores do choro De Mais Ninguém, que traz proximidade musical com o fado português de Paulo Bragança ou a morna cabo-verdiana Ondas Tchorá, interpretada por Bana.
É este o objetivo do Projeto Enlace, que está lançando o CD O Mar: traçar pontos de semelhança entre a música - e por consequência a cultura - de Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor-Leste. O Projeto Enlace pretende lançar 22 CDs até o ano 2000, com temas variados que ressaltam essas familiaridades.
A idéia começa a dar resultados quando pelo menos três países de língua portuguesa passam por momentos complicados. Em Guiné-Bissau uma tentativa de golpe militar provocou uma rebelião que se arrasta por vários dias, aterrorizando a população. Timor-Leste ainda vive a rotina de um território invadido, anexado pela Indonésia em 1976 - a anexação não é reconhecida pela comunidade internacional. Mesmo com a ascensão de Habibie, após a renúncia de Suharto, no poder da Indonésia, a perspectiva de liberdade ainda está longe para os timorenses. Em Angola, o grupo rebelde Unita concordou com o desarmamento para se transformar em partido político, e mesmo assim alguns conflitos foram registrados no mês passado.
Agência Estado(Não é permitida a reprodução total ou parcial desta foto dentro ou fora do Brasil)Cesária Évora, considerada a rainha da morna - ritmo tradicional de Cabo Verde - também está na coletânea O MarOs temas dos CDs do Projeto Enlace são: O Mar, Visão do Paraíso, Ritmos/Danças/ Percussões, Terra/Navegar É Preciso, Poesia, Religiosidade, Escravidão, Liberdade, Trabalho, Carnaval, Vozes, Cidades, Direitos Humanos, Barroco/Erudito, Malandragem, História, Migrações, Mulher, Movimentos Populares, Humor, Homenagens e Instrumentistas.
O projeto - que faz parte das comemorações dos 500 anos do descobrimento do Brasil - ainda está em busca de recursos para a produção de dez mil CDs de cada tema. As edições serão distribuídas a embaixadas, autoridades, jornalistas, universidades e outras instituições dos sete países envolvidos e, por enquanto, ainda não estão à venda ao público em geral.
O primeiro título, O Mar, foi lançado em caráter demonstrativo. O CD reúne os brasileiros Pena Branca e Xavantinho, Fafá de Belém, Marisa Monte e Paulinho da Viola. Entre os intérpretes estão também Cesária Évora, de Cabo Verde, Filipe Mukenga, de Angola, e Madredeus, de Portugal.
Dividido em sete partes, o álbum traz uma abertura e seções dedicadas a temas como Navios, Serenatas, Homenagens, Saudades, Danças e Encerramento. A abertura fica com Pena Branca e Xavantinho, com Gente que Vem do Mar/Peixinhos do Mar, duas peças folclóricas adaptadas por Tavinho Moura e Fernando Brant. A faixa segue as características da dupla: um bom dueto inicia a música, para, posteriormente, entrar o acompanhamento da viola.
A segunda faixa, Belga, do compositor Mendes Carvalho, de Cabo Verde, traz a interpretação competente de Cesária Évora, considerada a rainha da morna - ritmo tradicional de Cabo Verde. A faixa é uma das melhores do CD.
Como Belga, a terceira música também fala de migrações. Eu Vi Luanda, com Filipe Mukenga, ressalta toda a fusão de ritmos imposta pelo cantor/compositor, com forte sotaque africano. A letra elogia a cidade de Luanda, e fala das saudades de um marinheiro.
Fafá de Belém também canta viagens e despedidas com Peguei um Ita no Norte, de Dorival Caymmi. O cabo-verdiano Bana inaugura a seção Serenatas, com Ondas Tchorá. Considerado um dos grandes intérpretes do país, Bana respeita a melodia desta morna com uma interpretação cuidadosa. Na sequência vem o choro-canção De Mais Ninguém, interpretado por Marisa Monte. A parte das Serenatas é encerrada com o fado Formosa Inês, interpretado por Paulo Bragança, nascido em Moçambique e considerado um dos novos talentos do ritmo lusitano.
O português Fausto Bordalo Dias inaugura a seção Homenagens com Poema da Farra, em que faz referência a Jorge Amado. Fausto também traz uma mistura rítmica contundente, com influência africana, pois passou a infância em Angola.
Fundado pelos irmãos Ramiro e João Mendes, os Mendes Brothers surgiram nos Estados Unidos em 1978 e trazem ritmos dançantes na interpretação de Angola na Paz. A portuguesa Paula Ribas, especialista em fados compostos no Brasil, canta Os Argonautas, de Caetano Veloso, encerrando a seção.
A parte 4, intitulada Saudades, reúne Titina, de Cabo Verde, com Bejo di Sodade, Credifone, com Rui Sangará, da Guiné-Bissau, e a portuguesa Filipa Pais, com Canção de Dona Maria Esperando o Regresso das Naus. Pais também é considerada uma das novas revelações da música portuguesa.
Abrindo a parte 5, Danças, está Gilberto Gil Umbelina, de São Tomé e Princípe, considerado um dos principais compositores de seu país. Além da fusão de ritmos, Umbelina trabalha também na modernização do socopé e do decha, dois ritmos tradicionais das ilhas.
Representando o Moçambique está a Orquestra Marrabenta Star, com Elisa Gomara Saia, uma marrabenta - ritmo tradicional do país. O angolano Bonga ataca de Mariquinha, com suingue africano e que fala da luta pela paz em Angola.
A voz cristalina de Teresa Salgueiro, do Madredeus, entoa Ao Longe, o Mar, com acompanhamento acústico do grupo de Lisboa. A faixa também é um dos grandes destaques do álbum. Os únicos representantes de Timor-Leste são Antônio Ribeiro, Anó Cabral e João Justino, que interpretam a instrumental Táci Ibun (Beira-Mar).
O disco encerra com a ótima Timoneiro, de Paulinho da Viola e, apesar de reunir tantos ritmos e artistas diferentes, a linearidade é mantida. Não há sobressaltos, a sequência de composições segue harmônica até o samba de desfecho, resultando numa excelente coletânea. Mais informações sobre o Projeto Enlace podem ser obtidas com a Oboré, pelo telefone (011) 214-3766.





