Eleições e telejornalismo
PUBLICAÇÃO
segunda-feira, 29 de setembro de 2008
Nelson Sato<br> Reportagem Local 
A professora e pesquisadora da UEL, Flora Neves, lança hoje em Londrina o livro ''Telejornalismo e Poder nas Eleições Presidenciais''. A obra é resultado da tese de doutoramento da autora na USP. Flora usa os mais avançados instrumentos metodológicos da áreas de comunicação para analisar dados colhidos em gravações do Jornal Nacional nos períodos que antecederam as eleições presidenciais de 2002 e 2006.
Segundo ela, o JN enquadrou candidaturas e ofereceu uma possível contribuição para a formação da opinião pública. Antes mesmo do início da campanha, o noticiário já havia construído um cenário para beneficiar, privilegiar ou marginalizar candidatos.
O telejornalismo da Globo é demonizado por alguns setores da sociedade brasileira que o vêem como tendencioso, manipulador e oficialista. O seu livro reforça essa visão. Que dados e elementos sustentam sua análise e suas conclusões?
Houve vários momentos de interferências do jornalismo da emissora durante a cobertura do processo eleitoral, como em 1989 quando o candidato Fernando Collor de Mello foi favorecido com uma visibilidade acentuada e depois com a utilização de um debate editado entre ele e Lula na véspera do segundo turno da eleição que prejudicou o candidato do PT. Houve outros momentos de relações promíscuas entre o Jornal Nacional e o poder, como a não adesão à campanha pela Diretas-Já (1984) e o caso da manipulação da apuração na eleição para o Governo do Rio (1982). De lá para cá, o telejornal manteve sua postura, embora muitos pesquisadores tenham destacado uma mudança a partir da eleição de 2002.
O que eles diziam?
Que a Globo teria mudado seu comportamento mostrando equilíbrio e imparcialidade na cobertura do processo eleitoral daquele ano. De fato, houve um tratamento equilibrado de tempo dedicado a cada candidato. Em termos de conteúdo, porém, isso não ocorreu. O JN começou o ano eleitoral de 2002 derrubando pré-candidatos. Quando o nome de Ciro Gomes começou a crescer e ameaçou o segundo turno de José Serra (PSDB), iniciou-se uma série de matérias para denegrir sua imagem vinculando-o a Collor e a PC Farias. Também foi lhe associada a imagem de ser ''pavio curto''. Isso culminou com a exibição de uma entrevista em que ele dizia que um dos papéis mais importantes de sua mulher - a atriz Patrícia Pillar - era dormir com ele. O problema é que o telejornal omitiu sua última frase que dizia ''evidentemente, eu estou brincando''.
Como foi a cobertura de 2006?
Foi semelhante, só mudaram os personagens. Anthony Garotinho teve sua pré-candidatura desqualificada pela Globo a ponto dele fazer greve de fome em protesto contra a emissora. Todas as matérias em que apareceu ou foi citado tiveram conteúdo relacionado a denúncias. No segundo turno o noticiário negativo se voltando para o candidado do PSDB, Geraldo Alckmin. Qual a razão da guinada que teria contribuído para a expressiva vitória de Lula? No primeiro turno, não houve um diálogo direto do presidente com a família Marinho, o que ocorreu logo na primeira semana do segundo turno. A pesquisa, enfim, indica que o JN ainda mantém a mesma tendência unilateral em suas coberturas. É como o caso Isabela. As reportagens levaram a opinião pública a condenar o casal antes de qualquer julgamento.
O fato da população reagir em algums momentos, inclusive hostilizando repórteres da Globo nas ruas, não indica uma conscientização maior da audiência?
É uma minoria que percebe as sutilezas envolvidas na construção do noticiário - a escolha de uma imagem, a edição ou a omissão de uma fala, os vários recursos que podem levar à manipulação. A televisão tem penetração em 97º dos municípios brasileiros e mais de 90% assistem diariamente ao JN.
Como você analisa o noticiário local sobre as eleições municipais?
Percebo uma omissão dos telejornais, talvez pelo receio de ser partidário. Estamos, aliás, fazendo um monitoramento dessa cobertura para uma outra pesquisa na Universidade.
Serviço
- Telejornalismo e Poder nas Eleições Presidenciais
Quando - Hoje, 19h
Onde - Livrarias Porto, no Catuaí Shopping Center, em Londrina


