Rio, 22 (AE) - A eleição de amanhã na Academia Brasileira de Letras (ABL) para a vaga do dramaturgo Dias Gomes, acentuou a divisão entre os acadêmicos que se situam politicamente à direita e à esquerda. Dos três candidatos, o economista Roberto Campos e os professores Bella Josef e Hamilton Werneck, só os dois primeiros são citados como possíveis eleitos, mas desde a abertura da vaga as manifestações contra e a favor de Campos têm sido apaixonadas.
Esta não é a primeira vez em que ele se candidata. Já perdeu para o historiador José Scatinburgo e para o diplomata Sérgio Rouanet, mas não esperava tanta celeuma desta vez. "Para mim, esta discussão sobre esquerda e direita é obsoleta, o mundo se divide atualmente entre liberais, como eu, e dirigistas", comenta o candidato, que prefere não adiantar quantos votos lhe prometeram. "Sempre tive a Academia como uma instituição cultural e desligada da política."
Os fatos provaram seu engano. A oposição a seu nome apareceu em julho, quando uma carta atribuída ao presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), Barbosa Lima Sobrinho, anunciava seu voto contrário ao economista e pedia que outros imortais o acompanhassem. Sobrinho negou a carta, mas reafirmou sua posição contra Campos. "Ele votará com prazer em Bella Josef, mas daria seu voto a qualquer candidato capaz de derrotar Roberto Campos", diz a secretária da ABI, Ana Arruda, que fala por Sobrinho, que está de repouso esta semana.
A mulher de Dias Gomes também protestou em agosto e ameaçou tirar os restos mortais do marido da companhia de outros imortais, no mausoléu da ABL, caso Campos seja eleito. Mas os filhos do primeiro casamento do dramaturgo (com a novelista Janeth Clair) a desautorizaram. "Esta vaga sempre se caracterizou pela alternância política", lembra Roberto Campos. Segundo ele, Olegário Maciel era getulista e álvaro Moreyra, que o sucedeu, comunista declarado. Adonias Filho, o imortal seguinte, era integralista, e Dias Gomes alardeava suas tendências esquerdistas. "Todos fizeram o elogio a seu antecessor, como eu farei ao autor de "O Pagador de Promessas"
um libelo contra a intolerância."
Mas Campos tem bons cabos eleitorais entre os 37 acadêmicos que votam amanhã. A primeira mulher a se tornar imortal, a escritora Rachel de Queiroz, não só vota nele como acha que já deveria estar na academia há muito tempo. Circula a informação de que Ledo Ivo e Antônio Olinto também o apoiam. E alguns acadêmicos não declaram seu voto. O presidente Arnaldo Nisker, por deveres que o cargo lhe impõe, e o escritor João Ubaldo Ribeiro, "por não achar apropriado nem ético." Mesmo assim, ele deixa escapar suas tendências. "Posso até ter falado isso informalmente com algum amigo, mas publicamente eu nunca declararia minha posição porque o voto é, regimentalmente, secreto."

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