Como já dizia o consagrado dramaturgo alemão Bertolt Brecht ''o pior analfabeto é o político''. E para conhecer o perfil dos eleitores londrinenses um time de 105 alunos do 1º colegial do Colégio Aplicação saiu a campo semana passada para entrevistar os transeuntes do Calçadão. A meta era entrevistar 2,5 mil pessoas, o que corresponde a uma amostragem de 5% da população da cidade, estimada atualmente em 500 mil pessoas.
Munidos com pranchetas e formulários elaborados por eles mesmos, os alunos se dividiram entre as 25 perguntas referentes a tópicos diversos que envolvem o assunto política. Batizado de ''Escola e política: uma indagação na comunidade'', o projeto envolveu as disciplinas de português e matemática, trabalhando essencialmente conceitos de oralidade e estatística na formatação dos dados.
A pesquisa, finalizada na sexta-feira, mas que ainda está em fase de formatação dos dados, deverá em breve ser registrada no Tribunal Regional Eleitoral (TRE) e, além do aspecto didático, pode contribuir para elucidar as características do eleitor da cidade.
A professora de português Flávia Guergoletto conta que inicialmente os alunos não se interessaram muito pelo tema do projeto, mas que no decorrer da pesquisa - que foi baseada em artigos de opinião, charges e reportagens sobre política publicados na Folha de Londrina - passaram a gostar do assunto. ''Eles não sabiam o que era nepotismo, por exemplo, e agora já dá para perceber o entusiasmo deles e que já dominam mais conceitos relacionados à política'', comentou Flávia.
Já a professora de matemática Cristiane Rodrigues Reina Soriani ressaltou que os alunos também passaram a perceber o motivo que leva tantas pessoas a evitarem assuntos relacionados à política. ''Muitos estão descrentes e cansados, e há também muito desconhecimento. E acredito que essa vivência fora de sala de aula contribuiu na vida e cidadania dos alunos.''
O fato dos alunos do 1º colegial estarem se preparando para tirar o título de eleitor também foi um incentivo a mais para o tema do projeto ser trabalhado em sala de aula. ''De certa forma, eles ainda estão na transição entre adolescente e adulto e ainda não têm certos 'vícios' com relação à política, portanto, é um trabalho importante de conscientização'', acrescentou.
Entre os questionamentos apresentados pelos alunos estavam se o eleitor votaria em algum vereador acusado de corrupção, se o horário eleitoral influencia na escolha do voto, se o eleitor votaria em algum candidato com menos escolaridade que ele mesmo, se considerava correta a contratação de parentes para cargos públicos, se o eleitor venderia o voto, e se o eleitor considerava a educação precária devido à falta de escolaridade dos políticos brasileiros.
Animados com a vivência prática, os alunos relataram que de modo geral as pessoas entrevistadas foram receptivas e elogiaram a iniciativa deles saírem às ruas em busca desse tipo de informação, que algumas vezes pode gerar polêmica.
É o caso de uma das entrevistadas dos alunos que chegou a dizer que tranquilamente venderia o voto, mas que o fato de vender não seria garantia que iria fazer o que foi prometido ao candidato que tivesse comprado o seu voto. E, na cabeça dos alunos, essa pessoa passou por duplamente desonesta, mais até do que o próprio candidato que supostamente oferecesse para comprar o voto.
Outra resposta que gerou debate entre os alunos foi sobre a escolaridade dos candidatos. Um dos entrevistados chegou a afirmar que prefere votar nos menos favorecidos em termos de escolaridade por acreditar que estes são os que menos sabem roubar. ''Rico sabe mais como roubar'' foi uma das justificativas desse eleitor.
Os gráficos com os dados finais da pesquisa serão transpostos para o texto escrito e o material será exposto no colégio. Alguns representantes dos alunos que integraram o projeto irão relatar nas outras turmas a experiência de pesquisa de opinião.
Mesmo ainda sem o fechamento conclusivo do trabalho de pesquisa, os alunos já puderam constatar que a diversidade de opiniões encontrada no mix de variedade cultural e econômica de pessoas que passam pelo Calçadão é um pouquinho do que pensa cada um dos milhares de eleitores do Brasil.

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