Elegante concisão de movimentos
Marcos Losnak
Especial para a Folha
As linguagens estéticas trabalham, na maioria dos casos, muito mais no solo da sugestão do que no da afirmação. A dança contemporânea, embora necessite do chão firme para desenhar seus movimentos, estabelece grande parte de suas bases no solo da sugestão.
A companhia mexicana ‘‘Delfos Danza’’, presente no Festival Internacional de Londrina 98, consegue colocar os pés, de maneira eficiente, nos dois solos. Sugere e afirma. Em seu trabalho não há gordura de excesso, há cálculos para evitar o desperdício de gestos, de movimentos. Correlato à poesia em sua incessante busca em não desperdiçar palavras. Em outras palavras, concisão.
O espetáculo ‘‘Obra Reciente’’ apresentado anteontem no FILO revela um trabalho de extrema precisão e concisão corporal. Associado a isso, utiliza elementos teatrais como parte de suas coreografias, onde a dança entra no campo da encenação e a encenação no campo da dança eliminando os supostos limites.
De ‘‘Obra Reciente’’ destacam-se três coreografias: a vigorosa solo ‘‘Cariátide’’ em sua capacidade de sedução; ‘‘Catulli Carmina’’ pela sua exuberância plástica no intercâmbio dos corpos; ‘‘Del Amor y Otras Barbaridades’’ por sua união entre forma e conteúdo.
Esta última retrata os encontros e desencontros que o amor é capaz de germinar. Colocando no palco o amor heterossexual e homossexual, ‘‘Delfos’’ consegue extrair a essência do amor independente de suas múltiplas formas. Os conflitos causados pelo coração são ingredientes para o processo de maturação do sentimento, mas essa compreensão chega, geralmente, tardia. Quando estamos com as cinzas de nossos amados ou amadas nas mãos, o objeto do amor deixa de existir. Sem o objeto, a única coisa que permanece é o próprio sentimento. Ou o esquecimento.

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