DivulgaçãoAlceu Valença: rosário de sucessos concebidos ao longo de 20 anos, sempre em leituras elegantes‘‘Sol e Chuva’’, da Som Livre, é a adesão ao acústico do cantor e compositor pernambucano Alceu Valença. Em tempos de banalização do conceito, ele tem, em primeira instância, de suar para se destacar da massa. O formato tem se transformado em pretexto para que figurões da MPB regravem sistematicamente seus próprios sucessos, talvez em casos vários pela incapacidade de produzir outros novos.
Tal justificativa suplanta a da vontade de desplugar. Alceu Valença é outro desses casos em que o grau de eletricidade nunca roubou o destaque dos segmentos acústicos de sua música.
O que tem que se adequar aqui ao ‘‘desplugado’’ é a sempre elétrica voz do cantor, e aí o projeto ganha relevância - é coisa rara ouvir a voz estridente de Alceu domada, até delicada às vezes (a bela versão de ‘‘Tropicana’’ é bom exemplo).
Clichê Mas Alceu não é fundamentalmente intérprete, e, no caso, isso importa menos que a textura das canções. Aí ele cai - parece inevitável - em outro clichê do gênero ‘‘acústico’’: o da obrigatoriedade da elegância. Tudo é formalizado ao gosto dos 90, com realce aos timbres ora valorizados de forró, xote, maracatu.
Desfila um rosário de sucessos concebidos ao longo de 20 anos, sempre em leituras elegantes: ‘‘Cana Caiana’’ (77), ‘‘Pelas Ruas Que Andei’’ (80), ‘‘Como Dois Animais’’ (82), ‘‘Tomara’’ (83), ‘‘Girassol’’ (87). Elegância à parte, nenhuma traz o viço original.
Exemplo radical é o de ‘‘Anunciação’’ (83), canção que bem sintetiza a obra de Alceu. Vem descarnada, como se o padrão acústico significasse perda de vitalidade.
As releituras tornam-se veículos de reconstrução histórica da carreira de Alceu Valença, mas dão margem a uma dúvida: a elegância padronizada dos 90 vista daqui a dez anos será mesmo tomada por elegância ou terá o cheiro de bolor que o rock de sintetizador dos 80 tem hoje? Os anos dirão.

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