Elefante Branco retrata a violência social
PUBLICAÇÃO
sexta-feira, 25 de janeiro de 2013
Luiz Carlos Merten<br>Agência Estado 
São Paulo - Começa de forma muito intensa, com um massacre cometido por pistoleiros na selva. Há uma testemunha da chacina, e o espectador não sabe direito quem é, porque ele - é um homem - se esconde para escapar do tiroteio. Mais tarde, padre Nicolas, pois se trata de um religioso, vai se arrepender do que fez, somando a esta culpa uma outra, já que se envolve com uma assistente social. O filme é "Elefante Branco", de Pablo Trapero.
Trapero é um dos novos talentos mais em evidência do cinema argentino. Tem vindo com frequência ao Brasil - com a mulher, a atriz Martina Guzmán, que faz a assistente social, e o filho de ambos, Matteo. O 'pibe' ainda estava no ventre da mãe quando Marina e Trapero vieram mostrar "El Bonaerense" em 2002. Nicolas é Jéremie Rénier, que o cinéfilo se acostumou a ver nos filmes dos irmãos Dardenne, mas por mais importantes que sejam Marina e ele, o protagonista é o maior astro da Argentina - Ricardo Darín.
Como há uma primeira vez para tudo, o sedutor Darín, um ícone da virilidade (sensível) no cinema argentino, interpreta o padre Julián. Devotado às causas sociais, ele atua numa comunidade que se desenvolve à sombra do elefante branco do título - um gigantesco hospital cuja construção foi iniciada nos anos 1930, para ser o maior da América Latina. A obra foi interrompida, retomada sob o peronismo nos anos 1950 e novamente interrompida. O prédio deteriora, é ocupado por drogaditos. Padre Julián tenta se manter à margem da guerras de traficantes, Nicolas enfia os dois pés dentro dela.
Trapero tem lidado com os temas da violência e das desigualdades sociais, mas aqui ele talvez tenha feito o seu "Cidade de Deus" - a comunidade, por sinal, é conhecida como Cidade Oculta. Além do massacre do começo, o filme tem outra cena forte, mais perto do fim - o enfrentamento com a polícia, que quer desalojar os manifestantes. Garoto drogado matou policial que se havia infiltrado entre os religiosos e isso desperta a truculência dos colegas de farda do morto. O diretor filma bem as cenas de violência e integra, de forma natural, a atração que o jovem padre e a assistente sentem um pelo outro. Quando ele manifesta sua culpa, o espectador não sabe mais se é por haver se escondido e sobrevivido à chacina ou se por haver cedido à tentação da carne - à qual já se entregara no passado, conforme diálogo com o garoto que necessita de assistência social.
Em Cannes, em sucessivas entrevistas sobre "Elefante Branco", Trapero disse que seu novo filme, na verdade, começou a nascer há muito tempo, desde quando ainda estudava cinema. "Desde então, fui fazendo o que sempre faço. Tomei notas, busquei fotos e recortes de jornais. Sabia que seria um filme grande, com muitos personagens, e não tentei acelerar o processo. Deixei que a história fosse se delineando, tomando um rumo. O importante era isso, que a ideia começasse a existir na minha cabeça. O resto é consequência."
Muitas coisas foram mudando com o tempo e Trapero faz com que padre Julián diga uma frase decisiva - "A violência de ontem não é a mesma de hoje". Os problemas humanos e sociais que o filme espelha seguem existindo. Tomaram outra forma, são talvez diferentes porque hoje há mais gente em condições de extrema pobreza na Argentina, mas a essência não mudou.


