Belchior, na sua última entrevista, declarou: "Vou de volta para a minha cidade amada, para os lugares mais queridos do Brasil, vou fazer show, vou soltar um disco com canções novas"
Belchior, na sua última entrevista, declarou: "Vou de volta para a minha cidade amada, para os lugares mais queridos do Brasil, vou fazer show, vou soltar um disco com canções novas" | Foto: Reprodução



Fortaleza e Porto Alegre - Nesta terça-feira (2) o corpo do cantor e compositor Belchior está sendo velado no Centro Cultural Dragão do Mar, em Fortaleza (CE), onde haverá missa de corpo presente, seguindo depois para o Cemitério Parque da Paz onde será enterrado, às 9 horas.

A causa da morte foi o rompimento de uma das paredes da artéria aorta. Quem determinou foi o médico legista Mário Both, do IML (Instituto Médico Legal) da cidade gaúcha de Cachoeira do Sul. A informação foi confirmada pelo delegado de polícia Luciano Menezes, de Santa Cruz do Sul. O termo técnico utilizado no laudo é dissecção da aorta.

Belchior vivia na Residência Bom Padrão, no bairro Santo Inácio, na cidade a 150 km de Porto Alegre, recluso. Alguns vizinhos, inclusive, nem sabiam que ele morava no local. Entretanto, sabe-se que o cantor possuía amigos na cidade, como o jornalista Dogival Duarte. "Ele estava bem, mas bastante magro", disse Duarte ao jornal O Estado de S. Paulo. Os dois se viram há um mês.

Segundo Duarte, há mais de um ano e meio Belchior estava na cidade. A casa em que morava com a companheira, Edna Prometheu, foi conseguida por intermédio dele. O escritor revela que Belchior vivia com ajuda dos amigos. "Ele não precisava de muito dinheiro e também não fazia questão de ter. Os amigos sustentavam ele por onde ele estava, era hospedado como visita. Passou um ano na minha casa tendo tudo." Para Duarte, o autoisolamento de Belchior foi proposital, mas acabou se prolongando. "Ele parecia um monge, queria ler, se reciclar. Mas acabou passando tempo demais nesse intervalo."

VIDA
O cantor nasceu em Sobral, Ceará, em 26 de outubro de 1946, e depois de ser programador de rádio na cidade se mudou para Fortaleza para estudar filosofia e humanidades. Mudou para um curso de medicina, mas abandonou a faculdade e passou a perseguir a carreira artística.
Os grandes discos de Belchior são os cinco primeiros, gravados entre 1974 e 1979. Depois de um compacto na Copacabana com "Na Hora do Almoço" em 1971, ele foi contratado pela Chantecler para o primeiro álbum, de repercussão modesta, em que a experimentação com a poesia concreta se destaca. Em "Mote e Glosa", Belchior pergunta: "Você que é muito vivo me diga qual é o novo". Ele representava uma geração que pretendia romper com a MPB de maneira provocadora.

Com "Alucinação" (1976), Belchior chega ao auge criativo. O produtor Marco Mazzola, que teve de enfrentar a direção da PolyGram para conseguir fazer o disco, chamou grandes músicos de estúdio que entenderam a poética do cearense e sua estética sonora não convencional, que misturava Luiz Gonzaga e Bob Dylan. Com arranjos de José Roberto Bertrami, canções como "Velha Roupa Colorida" e "Como Nossos Pais", lançadas por Elis Regina, têm peso e força também sustentadas pelo instrumental. A partir daí, Belchior conquistou seu lugar. Naquele ano de 1976, poderia tanto cantar para a plateia popular de Silvio Santos à tarde e à noite fazer um show para universitários. Ele representava o homem do povo que, finalmente, estava onde queria.

O álbum seguinte, "Coração Selvagem" (1977), mantém o padrão do anterior, também sob a batuta de Mazzola. Ainda mais interessante é Todos Os Sentidos (1978), que mostra um artista fascinado pelo advento da disco music em duas faixas, "Corpos Terrestres", com participação das Frenéticas, e "Como Se Fosse Pecado". O grande hit, no entanto, foi Divina Comédia Humana. O Brasil inteiro cantou uma música que fazia referência ao poema de Dante Alighieri.

Finalmente, em "Era Uma Vez Um Homem e Seu Tempo" (1979), Belchior lança seu último grande sucesso popular, "Medo de Avião". Mas também estão ali "Pequeno Perfil de Um Cidadão Comum", feita com Toquinho, e "Comentário a Respeito de John", escrita com José Luiz Penna. Nos anos 1980, seus trabalhos têm menor repercussão, mas não são menos instigantes.

"Cenas do Próximo Capítulo" (1984) flerta descaradamente com a new wave e "Melodrama" (1987) mostra um compositor em forma, em um álbum elogiado à época pela imprensa. A partir de 1995, com "Um Concerto Bárbaro", Belchior começa a regravar sua obra indiscriminadamente, em projetos repetitivos.

SUMIÇO
Em 2006, o cantor sumiu sem deixar muitos vestígios. Belchior deixou o flat onde morava com a mulher Ângela Margareth Henman Belchior e os dois filhos na zona sul da capital paulista no final de 2006, quando problemas financeiros ficaram intensos. Ele também abandonou dois carros, que até o ano passado acumulavam dívidas de mais de R$ 200 mil.

A última entrevista conhecida de Belchior foi dada ao Fantástico, da TV Globo, em agosto de 2009 - talvez sua última aparição pública. Na ocasião, ele negou o desaparecimento e se recusou a falar sobre as dívidas no Brasil, que agora também envolviam pensões para os filhos.
Na mesma matéria, Belchior declarou que vivia em São Paulo e também prometeu um disco de inéditas. "Com certeza eu vou de volta para a minha cidade amada, para os lugares mais queridos do Brasil, vou fazer show, vou soltar um disco com canções novas", disse. "Eu sempre estou voltando para o Brasil", concluiu.


Trecho do primeiro capítulo do livro de Belchior, escrito pelo jornalista Jotabê Medeiros. Divulgado pela Piauí, da Folha de S.Paulo:


Em 2009, Belchior sumiu. Foi quando o jornalista Jotabê Medeiros deu partida à pesquisa para um livro sobre o artista. Durante anos, ele fez dezenas de entrevistas com parceiros musicais, amigos de infância, familiares e produtores de seus discos. Quando se preparava para viajar para Santa Cruz do Sul – cidade próxima a Porto Alegre, onde Belchior vivia anonimamente –, Medeiros soube da morte do artista.

O trecho abaixo foi extraído do primeiro capítulo do livro, a ser publicado em setembro pela editora Todavia. Trata de um período pouco conhecido na vida de Belchior: os três anos que passou como interno no Mosteiro de Guaramiranga, na região serrana do Ceará, durante a adolescência. Foi ali que o artista travou seu primeiro contato com a literatura e a filosofia e habituou-se ao silêncio e à introspecção que marcariam sua trajetória singular até o fim da vida.

Mede cerca de dez centímetros de comprimento, olhos brancos. Tem um canto anasalado, descompassado, que começa sem melodia (tiutiu) e termina com um sibilo (tchitchuuuuu). O macho, nessa clássica misoginia da natureza, é sempre mais vistoso, preto nas costas, com coroa e nuca vermelho-vivas e faixa branco-amarelada na base da cauda; há algum branco na asa, visível principalmente durante o voo, e tem amarelo por baixo, com o peito também tingido de vermelho. A fêmea é verde-oliva, cor mais intensa no dorso e mais clara na barriga, levemente amarelada. O passarinho guaramiranga (também conhecido como uirapuru-laranja, dançador-laranja, tangará de cabeça amarela e uirapuru de cauda curta) é considerado uma ave isolada na região, há diversos lugares onde sua espécie é mais numerosa. Mas foi a ele que cumpriu a tarefa de nomear todo esse oásis particular do Ceará, a Serra de Guaramiranga.

Sob o sol inclemente que encaçapa quase o Ceará inteiro, a Serra de Guaramiranga (também conhecida como Serra de Baturité ou Maciço de Baturité) é uma exceção climática atraente. Rodeada de cachoeiras e matas preservadas, de noite a temperatura ali pode beirar os 15 graus, o que faz o cearense de classe média tratar a cidadezinha de Guaramiranga, no coração da montanha, como a sua Campos do Jordão improvável, a sua Bariloche de estimação: há bistrôs, cafés, choperias, spas, comida alemã de turista e sopas e fondues aculturados aqui e ali.

Além do passarinho de canto anasalado, essa terra seduziu outras criaturas. Por conta do clima privilegiado, chegaram à região no século 17 as missões catequizadoras dos jesuítas, com o intuito de trabalhar na conversão de índios Tapuias ou Paiacus. No século 18, o português João Rodrigues instalou ali o primeiro ato colonizador, batizando a própria façanha de Sítio Macapá. Entre 1777 e 1793, uma inclemente seca fez com que fazendeiros cearenses migrassem para a serra, iniciando o cultivo do café, cultura que se adaptou facilmente ao clima. Surgiu a capela Nossa Senhora da Conceição, tornada matriz em 1873.

No começo dos anos 1930, desembarcou ali uma comitiva religiosa de frades italianos lombardos liderada pelo frei Bernardino de Désio. Na ladeira da gruta, em terreno doado, os frades construíram, em 1935, o Mosteiro dos Capuchinhos, ou Mosteiro da Gruta, uma edificação neoclássica cheia de estruturas arqueadas e ambientes amplos, jardins, além de capela. Um belo pastiche gótico a 960 metros acima do nível do mar – há também um convento jesuíta em Baturité, fora da cidade, no início da subida da serra, a seis quilômetros da cidade.

A Ordem Menor dos Capuchinhos, que veio fincar raízes ali, já tinha estrutura sólida no País, pois estabelecera-se no Brasil a partir de 1612, quando aqui chegaram os primeiros frades provenientes da França. Os capuchinhos no Nordeste (sobretudo no Ceará e Piauí) vieram a partir de 1880. A atuação no Ceará foi precedida de um constante trabalho de grandes missionários capuchinhos no Nordeste, desde os primórdios de 1700, com Frei Carlos de La Spezia, culminando com Frei Damião de Bozzano.

Em 18 de dezembro de 1935, começou no mosteiro a ação do estudantado filosófico e teológico. Em 1942, por conta da participação da Itália na Segunda Guerra Mundial, o comandante da 7a Região Militar ordenou que os frades do seminário Nossa Senhora do Brasil, em Fortaleza, conhecido como Messejana (bairro de Fortaleza, antigamente município de Messejana) fossem confinados em Guaramiranga, para que os "súditos do Eixo" fossem "afastados da Costa" brasileira. Os frades só retornariam ao Messejana no final daquele ano.

Em 1997, terminada a construção da residência missionária, no Piauí, o noviciado de Guaramiranga foi transferido para a nova casa. Após 56 anos, Guaramiranga deixava de ser o centro de formação dos frades capuchinhos da província.

Atualmente, o antigo convento funciona como uma disputada pousada, aberta tanto aos religiosos quanto aos turistas comuns. Possui 46 quartos. As antigas acomodações dos noviços foram modernizadas e transformadas em espaços de lazer. Um frade, frei José Maria, coordena os serviços turísticos.

Os capuchinhos cortavam o cabelo tipo "tigelinha" (o que facilitou contatos com índios, contam historiadores), zerado para baixo um dedo acima da orelha e com o cocuruto também raspado. Capuchinho seria um tipo de dissidente radical – os franciscanos tinham que manter o voto de pobreza, mas muitas vezes afrouxavam, o que gerou descontentamento. O patrono dessa dissidência, São Félix de Cantalício, nascido em 1515, era chamado, não por acaso, de "O Santo das ruas de Roma". Provavelmente, o mais famoso capuchinho que os brasileiros conheceram foi Frei Damião, morto em 1997, e a cujo velório compareceram cerca de 300 mil pessoas.

Além de serem rebatizados, os frades capuchinhos brasileiros costumavam carregar no novo nome o carimbo de suas origens. Frei José de Manaus, Frei Metódio de Fortaleza, Frei Vidal da Penha, Frei Pacífico de Baturité, Frei Daniel de Barreirinhas, Frei Fidelis de Aracatis, Frei Tito de Milagres, Frei Martinho de Cedro, Frei Timóteo de Canindé, Frei Bernardo de Viçosa.

Numa manhã nebulosa e melancólica de fevereiro, em pleno ano de golpe de Estado, 1964, iniciou seus estudos em Guaramiranga uma turma de 14 noviços capuchinhos. Entre eles, destacava-se o frei Francisco Antônio de Sobral, um rapaz de 18 anos de rosto geométrico como um cartum de Nássara e memória prodigiosa, além de facilidade despresunçosa para escrever. A bagagem que trouxe, em uma mala de mascate, era mínima como a dos demais noviços: dois lençóis, duas toalhas e três mudas de roupa, além de escova, pasta, saboneteira e sabonete. Espelho, pente e qualquer perfume eram proibidos. Uma hora após adentrar o mosteiro, seu cabelo foi raspado e o noviço foi enfiado num hábito rude, que a ele pareceu subitamente confortável.

O rapaz de Sobral recebeu depois um regulamento em linguagem rebuscada, cujas frases teve que reler continuamente para compreender. "Lembramos aos fradinhos da proibição omnímoda de se tocarem uns aos outros; os que não cumprirem essa regra serão punidos com o máximo rigor e nenhuma indulgência", dizia uma das regras.

Logo descobririam: aquele jovem de Sobral trazia outras coisas para Guaramiranga além da bagagem exígua. Era capaz de improvisar repentes e emboladas durante até duas horas, para alegria de sua turma. A escolha do nome Sobral foi de um bairrismo orgulhoso, mas essa seria uma das raras concessões de Antonio à cidade natal ao longo de toda a vida.

Além de bem-humorado, Frei Sobral era atento, disciplinado, fraterno e cortês. Recitava capítulos inteiros da Regra de Vida (espécie de Constituição dos capuchinhos), todo o Testamento de São Francisco, longas passagens de Os Lusíadas, de Camões. Mostrava controlada tendência para o rigorismo (as penitências e os jejuns impostos pela ordem). Encarava o cilício quase com indiferença. "Na época, nós noviços usávamos o cilício (um cinto de arames de agarração aracnídea entre o braço e o hábito) toda sexta-feira, das 5h30 até as 7h30. Casualmente, noviços notavam que ele continuava usando o penoso cilício "pelo resto da manhã ou mesmo do dia", conforme lembrou um rapaz de Quiterianópolis, cidadezinha no centro oeste do Ceará, e que se tornaria dos seus mais constantes colegas: Hermínio Bezerra. Apaixonado por etimologia, Hermínio estava desde os 11 anos na vida religiosa e conhecera Frei Sobral ainda como frequentador de cursos externos em Fortaleza, entre 1962 e 1963.

Frei Sobral tinha notabilíssimo senso de humor. Criava textos parodiando os fatos dos Fioretti de São Francisco ("causos" religiosos misturando ficção e realidade), mas colocando os próprios colegas noviços como personagens. Exímio versejador, ele conseguia improvisar repentes por duas ou três horas seguidas, em tardes de passeio. Tinha vários traços que o distinguiam, segundo seu amigo Hermínio: inteligência, comunicação, alegria e bom humor, e contribuía para alegrar o grupo, com repentes rimados e tiradas cômicas. Escrevia textos com grande facilidade. Algo da produção que o distinguiria no futuro já estava delineado ali mesmo, na vida monástica.

A vida anterior em Sobral, a fase da infância do novo frade, ao contrário do que certos relatos biográficos contariam três décadas depois, não era adornada com sonhos de se tornar artista, repentista ou poeta. A cidade tinha pouco mais de 30 mil habitantes e toda a infância do rapaz foi gasta na tranquila Rua Santo Antonio, sem prédios até hoje, ainda mantendo suas árvores de ficus e benjamins nas praças, ainda ecoando música de igreja dos seus templos, além de rádios predominantemente musicais.

Em Sobral, "entroncamento de todas as estradas que levam para o extremo norte", as experiências não foram decisivas. Ele considerava que ainda não tinha idade para o sexo. Mas frequentava a "zona" por conta de um grande saxofonista que se apresentava por lá. Ou seja: ia pela música, fugindo da severa vigilância de seu Otávio, seu pai. Descrevia o pai como "alto, tranquilo e forte como um sertanejo. Minha mãe, diferente, muito branca, traços afilados, o oposto do sertanejo típico. Meus avós e bisavós tinham certa ascendência holandesa". O avô tinha uma bodega que vendia tecidos – cáqui Floriano, mescla, pano de saco, farinha, fumo e "uma outra fazenda que até hoje não sei o que é, verde-oliva". O velho avô tocava flauta, os tios eram seresteiros e, "naturalmente, morreram disso", bromeou, certa vez.

A rotina no convento era dura. O noviço que quebrasse algum objeto na cozinha se via obrigado a amarrar os cacos desse objeto num cordão, dependurando-os no pescoço e indo até a sala do "capítulo", geralmente repetindo o ritual de beijar os pés dos superiores e pedindo perdão por ter quebrado o prato. Essa penitência muitas vezes se constituía em ficar de joelhos, até decorar determinados capítulos da Imitação de Cristo, de Tomás de Kempis. Às sete horas da manhã os noviços assistiam à missa. Depois, havia os cantos gregorianos e em seguida o café da manhã. Depois disso, recolhiam-se aos seus quartos em profundo silêncio.

Um dissidente da ordem daqueles tempos descreveu a árdua rotina do noviciado, um tipo de provação medieval. Segundo ele, quando se entra no convento da Ordem Capuchinha é preciso entregar tudo: os pertences pessoais, os documentos, trocar de nome e desistir da própria personalidade. Daí em diante, o fradinho age como autômato. Não tem vontade própria, nem lhe é permitido o direito de exprimir seus pensamentos. Durante as refeições, não se podia falar uns com os outros. Às sextas-feiras praticava-se jejum absoluto.

Guaramiranga, apesar da austeridade, tinha fama de colônia de férias em meio a essa realidade. Frei Domingos Teixeira Lima, capuchinho que estudou em Messejana de 1953 a 1957, descreveu uma realidade menos azeda em um belo texto sobre as férias dos noviços capuchinhos.

"O que catalizava as atividades dos seminaristas durante as férias era o passeio à praia da Jardilina. Na véspera, alguns passavam o dia todo na cozinha com Frei Jesualdo Rios preparando sanduíches, pastéis… Dormia-se mais cedo para se despertar a uma hora da manhã. Após breve asseio, rezava-se em latim, fazia-se breve refeição e a gente partia. Cada um recebia dois cocos verdes para levar. Nas sacolas alguns conduziam sorrateiramente garrafas de gororoba – suco natural de caju enterrado no chão que fermentava, virando vinho de caju."

A vida monástica atraiu o inquieto Frei Sobral por conta de seu debate intelectual, introspectivo e também público.

Quando concluiu que não tinha vocação para a vida religiosa, mesmo considerado um estudante exemplar, ele foi até o superior, Frei Pacífico, um homem generoso, mas seco nos modos. O frade já sabia do que se tratava, já tinham preparado seu espírito. "Você já pensou bem?", disse o superior. Frei Sobral respondeu, sem baixar os olhos: "Já pensei sim, e já decidi". Frei Pacífico se manteve imperturbável: "Pois então pode ir!", sentenciou. Em 14 palavras, terminava um período de três anos no coração da Serra.

Frei Pacífico era seu diretor de estudos, a quem ele tinha a obrigação de comunicar a decisão. Hoje, se pode sair da vida monástica com serenidade, mas naquela época era um drama. Os orientadores, como alguns ramos evangélicos de hoje em dia, sustentavam que aquilo era tentação do demônio, tibieza, falta de oração. Insistiam para que os dissidentes pensassem melhor. Isso significa que a atitude de Frei Pacífico, embora parecesse dura, foi inusitada para a época.

Depois que saiu, por muitos anos, Frei Sobral passou a usar seu verdadeiro sobrenome como cartão de visitas, mas colocava um acento circunflexo na letra O. Pronunciava assim: Belchiôr. Antonio Carlos Belchior. Ele voltaria numerosas vezes aos conventos de Fortaleza, Sobral e Teresina para conversar com ex-colegas e sempre demonstrava a mesma alegria e cordialidade de quando foi frade. Sempre descrevia ideias e planos grandiosos. A última vez que viu Hermínio, em 1996 ou 1997, falou ao amigo de um grande projeto de "se isolar para traduzir, em linguagem popular, a Divina Comédia de Dante Alighieri".

Frei Hermínio lembra, ainda hoje, alguns motes das improvisações de Belchior, o que lhe sugere que ele já tinha escrito, ali entre os capuchinhos, pelo menos uma de suas principais canções, Galos, Noites e Quintais. Ou seja: Belchior gestou no claustro os versos que só gravaria em 1977, no disco Coração Selvagem, 13 anos depois.

Quando eu não tinha o olhar lacrimoso, que hoje eu trago e tenho/ Quando adoçava meu pranto e meu sono, no bagaço de cana do engenho/ Quando eu ganhava esse mundo de meu Deus, fazendo eu mesmo o meu caminho, por entre as fileiras do milho verde que ondeia, com saudade do verde marinho/ Eu era alegre como um rio, um bicho, um bando de pardais/ Como um galo, quando havia… quando havia galos, noites e quintais/ Mas veio o tempo negro e, à força, fez comigo o mal que a força sempre faz/ Não sou feliz, mas não sou mudo: hoje eu canto muito mais.

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