Ele nasceu para a ficção
Em 1584, Cervantes publica La Galatea, mas o sonho do primeiro livro tornar-se sucesso vai por água abaixo. Estava casado com Catalina Palacios de Salazar, o casamento não ia bem, e em 1585 ele deixa a mulher na cidade de Esquívias e vai para Madri frequentar tertúlias literárias. Apaixona-se pelo teatro e passa a escrever peças.
Mas como Lope de Vega era o grande nome dessa arte - el monstruo de la naturaleza, segundo o próprio Cervantes -, o insistente escritor excursionou pela poesia, sempre em busca de afirmação artística. Pelos mesmos motivos deixou a prática dos versos. Ele sabia que nascera para a ficção e um dia iria dar certo no empreendimento. O primeiro grande momento chega com Novelas Exemplares. A consagração definitiva viria com Dom Quixote, sua obra-prima.
Não foi fácil a publicação do livro, como pode parecer à primeira vista. A primeira parte foi impressa em 1605, na tipografia de Juan de la Cuesta, para o editor Francisco Robles, em Madri. A segunda e última parte do romance só é editada dez anos depois, também em Madri. Nesse espaço de tempo o livro ganhara admiradores de outros países, mas seu autor sofria os reveses da vida.
Falso heróiEntre tantos dissabores houve até mesmo o de um aproveitador que, sabendo das intenções de Cervantes em dar continuidade às aventuras de Dom Quixote, lançou em 1614 a tal segunda parte da obra, assinando-se Alonso Fernández de Avellaneda.
O herói aparece como um maluco comum, sem nada que o dignifique como acontecera no trabalho anterior. Não despertou maiores paixões, mas é previsível o drama do escritor: alguém se apropriara de um personagem em que ele pusera muito de si mesmo, como numa confissão velada.
Tal fato com certeza apressou Miguel de Cervantes a procurar um editor e a publicá-lo. Ainda nesse ano de 1614 o romancista e poeta vence um concurso de poesias em homenagem à beatificação de Santa Tereza. O prêmio não representa muito dinheiro, mesmo assim serve de consolo para um homem que está enfermo, sem família, sem amigos.
A vida que está levando é muito distante daquilo que imaginavam seus leitores. Por volta de 1615 uma comitiva de fidalgos franceses, em visita a Madri, mostra-se interessada em conhecer o famoso escritor. Quando sabem da triste realidade em que se encontra, os fidalgos se revoltam: Pois a Espanha não fez rico esse homem? Não o tornaram pensionista do Estado?
Cansado e desiludido o escritor refugia-se na religião. Ingressa na Ordem Terceira de São Francisco e professa voto de pobreza e de humildade. A 17 de abril desse ano, com o novo livro correndo toda a Espanha, o autor está agonizante; recebe a extrema-unção. Morre num sábado, dia 23. As Madres Trinárias o enterram como irmão terceiro num túmulo humilde, sem lápide.(Z.C.L.)





