Ele manda recado para o delegado
Nascido em Pernambuco, Bezerra da Silva chegou ao Rio de Janeiro aos 15 anos, escondido em um navio. Seu primeiro trabalho foi na construção civil. ''Minha cama era um estrado e meu travesseiro era um tijolo'', conta. Anos depois, Bezerra conquistou lugar na rádio e a partir daí passou a atuar como compositor, instrumentista e cantor, gravando seu primeiro compacto em 1969 e o primeiro LP seis anos depois.
Inicialmente gravou cocos sem sucesso. Mas a partir da série ''Partido Alto Nota 10'' começou a encontrar seu público. O repertório de seus discos passou a ser abastecido por autores anônimos que Bezerra escolhe com cuidado. ''Eu tenho em casa um armazém de letras, sou um pesquisador musical. Aliás, eu nem devia ser chamado de artista, eu sou um operário musical.''
Essa relação com os compositores, anôminos ou não, chegou até a virar filme, o longa ''Onde a coruja dorme'' (2000), dirigido por Simplício Neto e Márcia Derraik. ''O filme ganhou diversos festivais nacionais e internacionais, só quem não ganhou nada fui eu'', ataca. O filme vai buscar as origens dos compositores descobertos e gravados por Bezerra, a maioria do morro, por isso o título. ''O morro tem uma linguagem própria, uma gíria só entendida por pessoas do próprio local. Eu aprendi todas elas'', lembra, justificando as habituais crônicas bem humoradas sobre a criminalidade e a malandragem presentes no seu repertório.
Entre as parcerias que fez ao longo da carreira, uma clássica com um curtibano, o delegado Jorge Azôr Pinto, é memorável. ''Encaixa aí nessa tua reportagem um recado para o delegado, diz que estou mandando lembranças'', pede.
Além do filme e das parcerias, o sambista também virou livro, em 1998, em ''Bezerra da Silva - Produto do Morro'', de Letícia Vianna. Quanto ao novo disco, está em produção o primeiro vídeo clipe do músico. A música escolhida, ''A Semente'', abre o novo CD do sambista e conta a história de um malandro que tenta se safar da polícia, explicando que uma semente de pepino jogada no fundo de seu quintal foi o que deu origem àquele ''matagal'' suspeito.
O vídeo será dirigido pelo artista multimídia Gringo Cardia, que já trabalhou com a dançarina Deborah Colker, a cantora Cássia Eller, o diretor teatral Zé Celso Martinez Corrêa e a atriz Luana Piovani. A atriz Maria Padilha, a Hilda da novela ''Mulheres Apaixonadas'', já teria confirmado sua participação no trabalho para divulgar o disco.
E apesar de seus 34 anos de carreira, 75 de idade e quase três dezenas de discos gravados, Bezerra da Silva nem pensa em parar por aí. ''Ainda tenho repertório para uns dez discos, só falta patrocínio'', avisa. E para manter tanta disposição, o conselho é categórico: ''é o que costumo falar para os meus filhos: não deixem envelhecer a mente''.(K.M.P.)





